O Sertão é para os fortes

NAS INTERPRETAÇÕES DO FOTÓGRAFO JOÃO MACHADO, A ESTÉTICA SERTANEJA REVELA ÂNGULOS PUROS E DE UMA BELEZA RARA

No sertão de João Machado, as cores são intensas, quase mágicas, os rostos carregam expressividade comovente e a paisagem é singular. Há muita luz e ela pode ser vermelha, amarela ou alaranjada, quando não é de um azul lunar. É um sertão eloquente, povoado de gente forte, a mesma que o fotógrafo costumava observar na infância.

Nascido em Xique-Xique, no interior da Bahia, João cresceu em família humilde e devota. Durante 37 anos, viu o pai e a mãe se preparem, anualmente, para a peregrinação de Bom Jesus da Lapa. Jogou bola na terra de cor carmim e dormiu debaixo de mosquiteiro. Viu muito vaqueiro correr atrás de boi e gente humilde tocar a vida dura de maneira sábia.

Mas foi apenas na fase adulta, depois de se estabelecer como fotógrafo em São Paulo, que resolveu sair em busca das próprias origens. “Quando eu trabalhava em outros segmentos da fotografia, pegava férias e ia para a minha cidade uma vez por ano. Lá, passei a registrar as minhas origens. Praticamente o que vivi: o menino jogando bola descalço no campo de terra, o menino que toma banho no rio, as festas folclóricas. Foi onde me encontrei, pois a partir daí a coisa ficou muito séria. Me dei conta pela quantidade de imagens que tinha produzido”, conta.

João Machado começou a clicar o sertão em 1993, com um olhar muito focado no cotidiano. Em 2002, o trabalho passou por uma reviravolta quando ele visitou Bom Jesus da Lapa pela primeira vez. Nunca havia estado na cidade, o terceiro maior ponto de romaria no Brasil, porque as condições financeiras do pai não permitiam a viagem.

Das incursões nasceram dezenas de séries. Penitentes, Crença e Fé, realizadas durante a romaria, estão entre as mais extensas, mas há também uma dedicada a vaqueiros, outra para o cotidiano e uma chamada de Iluminados, cujo tema são os mosquiteiros usados sobre as camas para espantar insetos. “Peguei o sertão e fatiei em várias linhas. É meu grande tema”, avisa o xiquexiquense, que admite ter um olhar especial para a própria terra, um olhar que não inclui a busca pela pobreza e pelo exótico presentes no trabalho de alguns colegas. “Conheço grandes fotógrafos que já fizeram o sertão, mas eles encontraram um lugar deteriorado, pobre, com bichos mortos. Não é o sertão que eu vejo. Eu entendo um sertão rico, com luz, com muita cor, fértil. Não tenho um olhar de desgraça. Não estou dizendo que não existe, só afirmo que eu não vejo.”

http://wwwjoaomachadoart.com.br

“CONHEÇO GRANDES FOTÓGRAFOS QUE JÁ FIZERAM O SERTÃO, MAS ELES ENCONTRARAM UM LUGAR DETERIORADO, POBRE, COM BICHOS MORTOS. NÃO É O SERTÃO QUE EU VEJO. EU ENTENDO UM SERTÃO RICO, COM LUZ, COM MUITA COR, FÉRTIL. NÃO TENHO UM OLHAR DE DESGRAÇA. NÃO ESTOU DIZENDO QUE NÃO EXISTE, SÓ AFIRMO QUE EU NÃO VEJO.”