Notas de Cordel

DEPOIS DE SETE ANOS DE HIATO, O GRUPO PERNAMBUCANO APRESENTA O SERTÃO VERDE E FLORIDO NO DISCO “VIAGEM AO CORAÇÃO DO SOL”

O sertão é vivo e forte na nossa existência”, explica Emerson Calado, percussionista e cantor do Cordel do Fogo Encantado. O grupo pernambucano, fundado em 1997, na cidade de Arcoverde (que fica a 256 quilômetros de Recife e é conhecida como o “Portal do Sertão”) passou de 2010 a 2017, como diz o músico, “hibernando” (seus integrantes foram se dedicar a outras atividades). A volta foi sacramentada este ano com o lançamento de seu quarto álbum, “Viagem ao Coração do Sol”.

A mistura de música, teatro e poesia, de sons regionais do Nordeste e do rock e folk do Cordel continua lá, intacta, para a felicidade de quem os acompanhou ao longo da primeira década dos anos 2000 — só que com novas belezas e intensidades. Aprofundada a relação do grupo com a natureza e a biologia, com a força dos elementos, ele sai do seu retiro e agora prega na canção “Sideral ou Quem Ama Não Vê Fim”: Sai do corpo e larga o chão / ensaiar revolução / feito um grão no teu jardim / pois quem ama não vê fim.

“Esse é o disco da primavera, da chegada do equinócio, uma abordagem bem diferente daquele sertão do nosso primeiro disco (“Cordel do Fogo Encantado”, de 2001). O sol não é mais aquele desértico, mas o do florescimento, do despertar para a vida. As plantas brotam e as flores trazem as cores de volta”, conta Emerson, que integra o Cordel desde o início com os amigos de Arcoverde, Lirinha (voz, poemas e pandeiro) e Clayton Barros (violão e voz), mais Nego Henrique e Rafa Almeida, ambos percussionistas e cantores, vindos do Morro da Conceição, na Zona Norte de Recife. “Acreditamos que essa parada do Cordel aconteceu quase que como uma metamorfose. Uma hibernação em que os animais entram em letargia, uma quase morte, para depois regene-rarem-se e voltarem para uma vida nova”, acrescenta.

“O SOL NÃO É MAIS AQUELE DESÉRTICO, MAS O DO FLORESCIMENTO, DO DESPERTAR PARA A VIDA. AS PLANTAS BROTAM E AS FLORES TRAZEM AS CORES DE VOLTA”

Num “percurso natural, não induzido”, enquanto Lirinha cuidava de sua carreira solo, Emerson Calado voltou para Arcoverde numa tentativa de reconexão com as suas raízes, com a fonte do seu conhecimento — que, ao contrário do que alguns possam pensar, pouco tem a ver com o sertão arcaico dos livros e dos filmes. “Arcoverde é uma cidade nova, de apenas 80 anos, que se formou por causa do comércio e dos viajantes. Ela não tem casarões antigos, nunca foi o arquétipo do sertão árido. É uma cidade de fluidez, com aspecto de cidade grande, mazelas de cidade grande e manifestações culturais contemporâneas”, diz ele, que fez parte de bandas de punk hardcore na adolescência. “O TERMO ‘SERTÃO’ NÃO SE REFERE A UM BIOMA ESPECÍFICO E É MAIS USADO PARA FALAR DE UM LUGAR COM UMA CULTURA RICA, QUE MUITAS VEZES NÃO CONSEGUE VENCER A DISTÂNCIA E O ISOLAMENTO. O CORDEL DO FOGO ENCANTADO ACABOU TORNANDO-SE UM CANAL PARA ESSE PENSAMENTO NÃO MUITO CONVENCIONAL DO SERTÃO, QUE É DESPRENDIDO DAS FÓRMULAS E VISTO POR QUEM É DE FORA COMO ALGO EXÓTICO.”

O novo álbum do Cordel foi produzido por Fernando Catatau, guitarrista, vocalista e líder do grupo cearense Cidadão Instigado. Conhecedor profundo das sonoridades da música brasileira, ele ajudou o Cordel a se integrar ao glorioso passado da produção nordestina, de LPs de Ednardo e Geraldo Vandré, e fazer um disco descolado não só da época atual, mas de qualquer época.

DISCOGRAFIA

“Viagem ao Coração do Sol” é um novo capítulo na trajetória da trupe teatral, que no fim dos anos 1990 saiu de Arcoverde, se encontrou em Recife com os músicos da periferia e, com energia reforçada, despertou a admiração de um dos maiores nomes da percussão no mundo: o pernambucano Naná Vasconcelos (1944-2016), que pegou o Cordel pelo braço e não só produziu o seu álbum de estreia, “Cordel do Fogo Encantado”, como ainda tocou nele. Com jeito de samba, a canção “Chover (ou Invocação para um Dia Líquido)” foi um dos grandes sucessos desse disco, que fez do grupo uma sensação da cena musical independente do País.

Em seu segundo álbum, “O Palhaço do Circo sem Futuro” (2003), o Cordel revelou uma linguagem mais urbanizada da vida em São Paulo (para onde se mudaram) e das convulsões causadas pelos atentados de 11 de setembro. O show desse disco ganhou projeção internacional, com apresentações na Bélgica, Alemanha, França e Portugal. Com suas guitarras pesadas, “Tempestade (Ou a Dança dos Trovões)” mostrou a cara mais rock que o grupo adquiriu no disco. Já no terceiro álbum, “Transfiguração” (2006), começou a transparecer a saudade que os músicos sentiam de casa. As canções ficaram mais lentas, melancólicas, com mais melodia e menos percussão — uma transformação que pode ser exemplificada pela faixa “Preta”.