Ler: Transformação em si mesmo

Muito antes de receber o Prêmio Nobel ou de se descobrir um escritor com um talento inesgotável, antes mesmo de publicar seu primeiro livro ou de adotar a literatura e as palavras como instrumentos indissociáveis da sua obra. Antes de ser José Saramago, autor consagrado, o jovem José, da província portuguesa de Ribatejo, desempenhou trabalhos de serralheiro mecânico, desenhista e funcionário público nas áreas de saúde e previdência social.

A família de origem humilde, a convivência com o avô analfabeto, que ganhava a vida criando porcos – homem mais sábio que Saramago diz ter conhecido -, as dificuldades para completar os estudos e cada uma das funções exercidas tiveram relação profunda com as intensas transformações sofridas pelo escritor ao longo de seus 88 anos de vida, e presentes tanto dentro de seus romances, contos e crônicas, quanto em seu estilo único de escrever e de converter a língua portuguesa num idioma praticamente particular.

O RUMO QUE SE TRANSFORMA

A certa altura de O conto da ilha desconhecida, uma das mais instigantes histórias criadas pelo autor português, Saramago escreve: “Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver. Não o sabes, se não sais de ti, não chegas a saber quem és”. O personagem que buscava por uma ilha desconhecida no decorrer do conto percebe uma procura interior e desperta os profundos desejos de descobrir a si mesmo. A saga transformadora do homem que bate à porta do rei e pede um barco para sua jornada não deixa de ser uma referência aos caminhos percorridos pelo próprio Saramago, um questionador nato, que revela pensamentos e angústias por meio de sua obra. Mestre das palavras e um gênio em tratar as sutilezas da natureza humana, o escritor do Ribatejo utilizou a ponta aguda de sua caneta também em Ensaio sobre a cegueira. No livro o escritor descreve como podemos ser levados a transformações tão extremas diante de circunstâncias aterradoras. No livro a mudança é brutal, com homens sendo levados à condição de bestas. “Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”, escreveu o português.

O Evangelho segundo Jesus Cristo, O homem duplicado e As intermitências da morte são outros exemplos de livros do escritor em que a transformação é sentida a cada página. Muito além de obras específicas, contudo, a língua portuguesa também teve seu aspecto transformado pelas mãos de José Saramago. A pontuação sem qualquer regra, a narrativa predominantemente oral e as frases em que pensamentos e falas se confundem entre um elegante emaranhado de vírgulas fazem do estilo do escritor uma marca registrada, com linguagem própria e um fluxo de pensamento completamente natural.

Com seu talento marcante, Saramago foi capaz de praticamente reinventar um idioma e transformá-lo na linguagem perfeita para transmitir suas histórias. O estilo que privilegia a oralidade e a converte em literatura de alto nível tornou-se uma marca indissociável do premiado autor. Peculiar e estranha, mas ironicamente perfeita, a escrita de Saramago é um reflexo das transformações e trajetórias vividas pelo autor e por todos os seres humanos.

 

Fotos Patrícia de Melo Moreira / Getty iMAGES