Transmutação de Yamamoto

Reconhecido como um dos nomes de vanguarda, Yohji concilia funcionalidade e arte para idealizar peças atemporais

Quando estreou em Paris, no início da década de 1980, o estilista japonês Yohji Yamamoto foi comparado ao impacto de uma bomba atômica. Parte da crítica não gostou da proposta que trazia uma simplicidade exótica à década mais kitsch da história da moda. Na passarela da Cour Carrée do Louvre, os modelos desfilaram descalços, com roupas de aspecto usado, meio rasgadas e envelhecidas por processos de lavagem inovadores. A parte que gostou daquilo que viu reparou que Yamamoto pincelou uma estética controversa aos ateliês acostumados ao luxo de Dior e Chanel. Alguns falaram em desconstrução do bom gosto e pontuaram que o viés contemporâneo começava ali, naquela passarela.

O processo físico fatal provocado pela hecatombe até faz sentido para o japonês, hoje com 75 anos. De- claradamente antimoda, o estilista, e não costureiro, como ele faz questão de frisar, causa mesmo um terremoto inusitado no universo fashion. Preto e branco são as suas bases preferidas. O colorido distrai, por isso não é assíduo no espectro do ateliê da marca. No mundo da física e da química – em que a alquimia é tramada –, a dobradinha P&B não precisa de complemento. As tonalidades estão ali graças à ausência de luz e à reunião de todas as cores, respectivamente. Ambas são acromáticas e capazes de estabelecer elos simbólicos com toda a história da humanidade. Se o branco está associado à pureza e ao angelical, o preto carrega a gravidade, a sobriedade, a autoridade e a tristeza – o que motivou a inspiração do estilista, cuja mãe, viúva e costureira, usava roupas pretas constantemente. Yamamoto desconstrói quase todas as ideias do circuito da moda. A primeira delas tem como centro o próprio poe a noção de que o vestuário deve se adaptar àquele que as usa e não o contrário. A sua alfaiataria de cortes assimétricos, acabamentos soltos e tamanhos aparentemente desajusta- dos traduz um desejo de ver as silhuetas libertas. “Das referências japonesas, ele traz o minimalismo que faz as suas invenções parecerem novas e velhas”, como diz Wim Wenders, diretor de Notebook on Cities and Clothes,documentário no qual explora, sobretudo, a questão da identidade presente nos modelitos transgressores de Yamamoto.

As origens nipônicas norteiam as coleções da grife, mas Yohji não gosta de ver suas crias limitadas a essa vertente. Vez ou outra ele faz questão de revelar que tem insights até mesmo nos trajes dos trabalhadores ocidentais. Sua vontade, ou pelo menos o que deu início a tudo, foi a ideia de proteger o corpo feminino dos olhares “ou do vento malicioso”. Conforto em primeiro lugar nem que seja necessário desconstruir o mundo da moda, remodelá-lo, transmutá-lo para um universo mais real, no qual as assimetrias e os desgastes são imperfeições naturais da condição humana. Um verdadeiro elixir.

Foto de Karim Sadli com styling de Simon Foxton, revista i-D, Summer 2010

Modelo Linda Evangelista, revista i-D março de 2004