Símbolos ressignificados

SIMBÓLICO
Em uma atualidade em que se questiona o que se concebe como romântico e o amor sublime, bem como o que é santo e sagrado, a Moda não poderia vir em outra direção. A resposta é um novo ponto de vista, não no sentido de desrespeito ao amor e descrédito aos dogmas religiosos, mais sim uma reflexão sobre vínculos e sua efemeridade, sem contar o acolhimento de um novo credo livre e a necessidade de respeita-la em suas diferentes vertentes. O amor e a fé variaram uma tendência nos momentos de tensão atuais, mas a leitura é muito mais madura e complexa do que aquela presente nos contos de fadas.

SÍMBOLO RESSIGNIFICADOS

Símbolos poderosos são reconhecidos em conexões que não provêm da razão, mas de sentimentos e impulsos, e a moda propõe uma ressignificação desses elementos. Neste momento em que o mundo parece estar se reinventando, observam se várias rentes de questionamento sobre antigas verdades, inclusive o amor e a religião.

Quer seja pela adaptação, mudanças graduais, ou pela subversão, ações disruptivas, segundo a consultoria de estilo Rafaela Labatut Pereira a Moda como um todo está sendo ressignificado. “A expressão por meio da roupa é a grande tendência. Ainda que essa função seja intrínseca ao próprio conceito de Moda como arte e seja vista em diversos momentos ao longo da história, a verdade é que na contemporaneidade a marca que não abraças essas ideia vai acabar se perdendo no mercado”.

A Manoel Bernardes está sintonizada com este movimento e a nova coleção da marca simboliza que amor não é um todo perfeito, impecável. Ao contrário, é feito de fragmentos, de momentos de ruptura; de alegria e de dor. São cruzes e corações de design arrojado, feitos em cores incomuns, que não têm o romantismo que normalmente impregna as joias que trata do tema. “TODAS ESSAS PEÇAS TEM UM ACABAMENTO MAIS ESCURO, DARK, PARA MOSTRAR QUE NEM TUDO É TÃO COR DE ROSA COMO A GENTE QUER FAZER CRER”, revela o joalheiro Manoel Bernardes, que propõe uma nova leitura dos símbolos, desprovida de agressividade ou contestação, mas em busca de um novo ponto de vista.

“SÍMBOLOS SOCIALMENTE FORJADOS PARA O UNIVERSO FEMININO VÊM SENDO SOBREPOSTOS EM COLEÇÕES MASCULINAS E VICE-VERSA, TRAÇO ESTE QUE TENDE A SE CONSOLIDAR COMO ASSERTIVO”. Rafael Labatut Pereira, consultora de imagem.

NOVAS ROUPAGENS

A desconstrução da narrativa romântica, no melhor estilo Madame Bovary, vem presente na aposição de flores em fundos escuros, geralmente aumentadas e distantes da estamparia suave de outros tempos. Corações, rendas, babados, bolonhês, transparências, tecidos fluídos (sempre em contraponto com peças mais pesadas) além do vermelho e rosa como paleta bastante ostensiva, confirmam a nova visão.

Os símbolos, despidos de sua inocência e delicadeza, foram vistos em muitas das últimas semanas de moda, seja na contextualização caótica da Comme des Garçons ou extrema e trabalhada da Fendi. “Em contraponto, a própria ideia de gênero vem ressignificado na tendência genderless. Símbolos socialmente forjados para o universo feminino vem sendo sobrepostos em coleções masculinas e vice versa, traço este que teve a se consolidar como assertivo”, acrescenta Rafaela.