Olhar transcedente

Moda, Viagens, Crianças, Retratos, Nus, Variações e Mulheres, no livro Sequências* a obra de Otto Stupakoff está perfeitamente dividida dessa maneira. Era o que ele era: um generalista objetivo, um artista fotográfico, um amante das mulheres e da beleza, mas nunca fugaz em seus cliques. Dotado de um olhar sensual e nada marcado pela mesmice das caras e bocas, foi pioneiro da fotografia de moda no Brasil e até hoje é retratado como um dos fotógrafos brasileiros de maior projeção internacional.

Nascido em São Paulo em 28 de junho de 1935, Otto Stupakoff iniciou seus estudos em fotografia ainda menino e aos sete anos já clicava. Prodigioso, aos 17 anos foi para Los Angeles estudar fotografia no hoje conhecido Art Center College do Design. Ele ficou lá até 1955 e nesse período foi correspondente da Revista Manchete, galgando um início de carreira invejável para os anos 50.

Ao voltar para o Brasil, Otto, já dono de estúdio e com uma carreira consolidada em fotojornalismo, tem um insight e resolve clicar a namorada Duda Cavalcanti com roupas do estilista Dener Pamplona. Estava criVada então a primeira foto de moda no Brasil, sendo que Duda passou a ser considerada a primeira garota de Ipanema, chavão até hoje conhecido.

O OLHAR DO ARTISTA TRANSCENDE E OS RETRATOS DE OTTO SE TRANSFORMAM EM VERDADEIRAS OBRAS DE ARTE

Ali, tudo era começo, mas Otto, já dotado de um olhar único, voltaria aos Estados Unidos e começaria a trabalhar para revistas como Harper’s Bazaar, Life, Vogue e Esquire trazendo vida para editoriais de moda que o consagraram. “Sempre tratei o retrato de moda como uma foto familiar. Sou fotógrafo de moda que tem ojeriza a fotos posadas. Sempre tentei que as modelos fossem o mais descontraídas possível, que fossem atrizes, que pudessem viver a situação com a qual elas se deparariam na locação”, contou em entrevista ao site UOL durante a mostra Moda sem Fronteiras, organizada em sua homenagem no São Paulo Fashion Week, em 2005.

Foi nessa mesma época que passou a ser chamado para fotografar celebridades. São seus alguns dos cliques mais incríveis de personalidades como Truman Capote (fotografado no mesmo dia em que se separou do marido), do ex-presidente Richard Nixon, do mal humorado Jack Nicholson, da modelo Sharon Tate – vestida de noviça na praia -, de Jorge Amado, Tom Jobim, Pelé, Sophia Loren, Grace Kelly entre muitos outros. “O máximo em fotografia de moda. Todo mundo queria um portrait feito por ele, escreveu o cronista e amigo Loyola Brandão em matéria produzida para o Estadão, logo após a morte de Stupakoff.

“SOU FOTÓGRAFO DE MODA QUE TEM OJERIZA A FOTOS POSADAS. SEMPRE TENTEI QUE AS MODELOS FOSSEM O MAIS DESCONTRAÍDAS POSSÍVEL, QUE FOSSEM ATRIZES, QUE PUDESSEM VIVER A SITUAÇÃO COM A QUAL ELAS SE DEPARARIAM NA LOCAÇÃO” OttoStupakoff

Quiçá o glamour das celebridades e das capas de revistas, Otto também fez muita foto autoral, muitas clicadas em sua casa no Rio de Janeiro, várias outras de suas esposas e filhos no interior da França e diversas imagens de fotojornalismo realizadas durante suas inúmeras viagens, sendo inclusive convidado por JK e Niemayer para documentar as obras na então nova capital brasileira, Brasília. Nessas fotos, o olhar do artista transcende mais uma vez, e os retratos de Otto se transformam em verdadeiras obras de arte. Todas essas imagens estão sob a guarda do Instituto Moreira Salles, desde 2008, compondo um gigantesco acervo de 16 mil imagens.