Descosturando Fraga

A MENTE INCANSÁVEL DO ESTILISTA RONALDO FRAGA VAI MUITO ALÉM DA SEARA DA MODA – E ELE PINTA E BORDA EM TEMAS INCLUSIVOS E ATUAIS

Belo Horizonte, 27 de outubro de 1967. Sol de começo de primavera. Roney, Robson e Rosilene esperam pelo nascimento do então caçula dos Fraga – Ronaldo (que depois perdeu o posto para o irmão Rodrigo). O menino nasceu em um cenário conturbado, permeado por revoluções em prol da liberdade e dos direitos civis. Talvez seja por isso que ele tenha escolhido cultivar a paz. Rebeldia, só mesmo na sua obra.

Órfão de pai e mãe aos 11 anos, precisou de uma dose extra de amadurecimento e de muito foco para driblar o próprio destino. Apostou na educação e se inscreveu em diversos cursos de dese-nho. Fez Senac, depois ingressou na Universidade Federal de Minas Gerais e de lá carimbou o pas-saporte diretamente para a renomada Parsons School of Design, em Nova York (era o prêmio por ter conquistado o concurso promovido pela Santista, com 1.800 inscritos). A sede pelo conhecimento ainda o levou para uma temporada em Londres.

Aos 28 anos, retornou ao Brasil. Era 1995, a democracia estava restaurada e o País dava os primeiros sinais de que estava pronto para ser redescoberto. Ronaldo, literalmente, o devorou. No ano seguinte, a passarela do Phytoervas Fashion serviu como palco de estreia – e o pensamento cáustico do estilista pôde ser interpretado na coleção autobiográfica “EU AMO CORAÇÃO DE GALINHA”. “NO INTERIOR, QUANDO SE FAZ UM CÍRCULO NO CHÃO EM VOLTA DA GALINHA E ELA NÃO PULA, FICA PRESA PARA SEMPRE. É UMA METÁFORA PARA LEMBRAR QUE TEM MUITA GENTE ASSIM. NAQUELE MOMENTO, QUERIA FALAR SOBRE A IDENTIDADE DO VESTIR, A INDIVIDUALIDADE”, DIZ.

Oito desfiles depois, e ele engrossou o line-up que deu forma ao São Paulo Fashion Week. Na vida pessoal, fez par com Ivana, com quem tem Ludovico e Graciliano. Para cada nova empreitada, ele se debruça sobre histórias brasileiro – de Arthur Bispo do Rosário a Zuzu Angel, passando por Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Portinari e Athos Bulcão. Ronaldo visita o interior do País, sempre com o olhar de alguém apaixonado n’alma. Ama o vermelho-queimado do Jequitinhonha, a exuberância do rio São Francisco – cenário mítico desde a sua infância –, a delicadeza do Pará e a força do sertão. É ativista, envolvido e bem resolvido. Gosta de causas e tem os dois pés fincados no terreno da transgressão.

Enquanto a maioria dos fashionistas cultua a magreza e a beleza pueril da adolescência, ele endossa os cabelos grisalhos – que também ostenta –, o rosto marcado pelo tempo e acha ótimo zanzar na contramão dos estereótipos. Inventa moda, curte as tramas genuinamente nacionais, o ponto certeiro da mulher rendeira, o couro usado pelo vaqueiro, o retalho do tecido que está pronto para ser (re)construído.

Ronaldo, com seu bigode pontiagudo, tatuagens de alvos cravados nos cotovelos e serenidade típica do mineiro, continua rabiscando os enredos que a vida lhe impõe. “Desenhar faz as pessoas mais felizes”, avisa. O seu traço, já convertido em arte, estampa o livro “Ronaldo Fraga: Cadernos de Roupas, Memórias e Croquis” (ed. Cobogó) e provoca reflexões. Mas nem sempre há unanimidade.

Em sua mais recente investida, Fraga semeou o solo de Mariana – inundado pela lama – e provou que, mesmo quando o homem é o algoz, é possível renascer. Por meio do artesanato de tradição, ele escalou uma porção de bordadeiras da cidade de Barra Longa, também no trajeto destruidor do lamaçal, para entrelaçar as peças que emocionaram quem assistiu ao último show (e a palavra é show mesmo, já que se trata de um verdadeiro performer). “Era para ser uma consultoria rápida, mas quando cheguei ali e compreendi a história daquelas mulheres, percebi que havia a possibilidade de o ofício virar um mapa de salvação. Então passei a dar ‘lições de casa’, pedindo que elas resgatassem bordados antigos, que as avós faziam e elas já não viam mais. Depois foi a vez de recuperar os jardins que o barro soterrou, e transformar as plantas em motivo de alegria.” E é assim, com esse apreço pelas raízes, que Ronaldo descobre o Brasil.

“RONALDO VISITA O INTERIOR DO PAÍS, SEMPRE COM O OLHAR DE ALGUÉM APAIXONADO N’ALMA. AMA O VERMELHOQUEIMADO DO JEQUITINHONHA, A EXUBERÂNCIA DO RIO SÃO FRANCISCO – CENÁRIO MÍTICO DESDE A SUA INFÂNCIA –, A DELICADEZA DO PARÁ E A FORÇA DO SERTÃO”