COTIDIANO: O instante, o olhar e as flores

“Os japoneses acreditam que os deuses existem na natureza e a adoram. Temos medo e respeito pelas coisas que estão ocultas, elas possuem um poder esmagador. Nesse sentido, a performance é um tipo de oração” Makoto Azuma

“Procuro novas formas de expor as espécies. Eu embalo-as a vácuo, queimo e congelo – estas ações são tentativas de fazer um recorte de sua beleza” Makoto Azuma

Indecifrável, desafiador, ousado, dono de uma visão única de mundo, Makoto Azuma é o must do momento. Queridinho dos fashionistas, esse “escultor botânico” como é conhecido, gosta de desafiar a realidade e em sua última intervenção, na semana de moda em Paris, ornamentou a passarela do estilista Dries Van Noten, com um de seus projetos mais inusitados: o Iced Flowers. Em maio o artista vem ao Brasil, para a intervenção móvel Flower Messenger, que acontece durante a inauguração da Japan House, em São Paulo. Se estamos preparados para tanta inovação, só o tempo dirá, mas com certeza essa passagem não será em branco e sim, repleta de cor e (é claro) muitas flores!

Foi quase sem querer, numa mudança de rumo na carreira, que Makoto Azuma apareceu. Desembarcando em Tokyo em 1997, ele queria mesmo tocar numa banda de rock, mas por quase uma brincadeira do destino, começou a trabalhar no Ota Market, o maior marcado de flores e plantas ornamentais no Japão. Mas o destino é sábio e ali nascia um florista inusitado, um escultor botânico, um amante da vida e da morte.

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No Facebook Makoto diz que o seu interesse é “fazer as flores/plantas mais vivas do que elas realmente são”, mas seu trabalho não resulta apenas em expressar a beleza delas, indo muito além do superficial. O artista também não ignora a morte, ao contrário, desafia seus limites, propondo a quebra de estereótipos com ideias inimagináveis e projetos com execuções magníficas, tudo fruto de uma relação inovadora com flores e plantas, onde o instante entre o homem e a natureza é o principal motivo. O trabalho de Azuma não é sobre modificar, é sobre a permanência, sobre possibilidades, sobre o mundo, sobre nós e o meio ambiente. Ele nos oferece a reflexão e a busca pelo impossível.

Exobiotanica_Flower01

Provocador, disponibiliza no You Tube, vídeos onde retalha pedaços de carne de vaca e os ornamenta com flores, num misto grotesco e muito reflexivo sobre nossos costumes. Assim, ele transcende a figura do florista e mostra a faceta do artista performático que vai além da crítica pura e simples. “Os japoneses acreditam que os deuses existem na natureza e a adoram. Temos medo e respeito pelas coisas que estão ocultas, elas possuem um poder esmagador. Nesse sentido, a performance é um tipo de oração”, explica o escultor-botânico.

Resistência e beleza

Em 2012 Makoto foi ao extremo e lançou (literalmente) flores ao espaço – numa altitude de 30 km! Denominado Exobiotanica (exobiotanica.com), o projeto levou arranjos de flores para a estratosfera, usando para isso um balão meteorológico com uma câmera digital acoplada – que registrou imagens excepcionais desta arte no espaço. Sobre esse trabalho, Azuma afirma que a ideia foi colocar as flores num ambiente onde elas nunca poderiam existir e dessa maneira fomentar a discussão sobre o limite do possível (ou melhor, do impossível). “Para mim esse é um projeto muito importante. Pessoas que nunca se interessaram por flores, passaram a se interessar pelo assunto vendo essas as imagens”, conta em entrevista a Revista G.Q.

Desafiar a natureza daquilo que é natural, é ponto crucial no imaginário artístico desse florista espetacular. E ele mais uma vez nos deixa perplexos com a surpreendente ideia de congelar flores. Estreado na última semana de moda de Paris e produzido para decorar o desfile do estilista Dries Van Noten – parceiro de Azuma, desde 2014, em outros projetos de moda e arte -, o projeto Iced Flowers, levou as plantas ao limite da resistência, interrompendo seu fluxo natural, uma vez que foram colocadas em cubos de gelo gigantescos. O que parecia chocante acabou por ser encantador, um verdadeiro jardim de gelo repleto de cores. Um mundo surreal e incrível.

O trabalho de Azuma é inconstante e profundo e ao mesmo tempo frio e calculado milimetricamente. Opostas e diversas, suas obras vão além do entendimento comum, mas nunca perdem o sentido. É como se Azuma nos lançasse na complexidade do nada para depois enraizar nossos pés no chão. As plantas são a sua matéria-prima, ele faz com elas o que quer, porém o respeito por elas é algo muito presente no cotidiano do artista. “Procuro novas formas de expor as espécies. Eu embalo-as a vácuo, queimo e congelo – estas ações são tentativas de fazer um recorte de sua beleza”, afirma o florista. Buscando esse recorte, Azuma, cria seus projetos num estúdio no subterrâneo de Tokio, local que o artista acredita ser o melhor para as flores, já que cria uma identidade com suas raízes.