Moda e Beleza

Transmutação de Yamamoto

Reconhecido como um dos nomes de vanguarda, Yohji concilia funcionalidade e arte para idealizar peças atemporais

Quando estreou em Paris, no início da década de 1980, o estilista japonês Yohji Yamamoto foi comparado ao impacto de uma bomba atômica. Parte da crítica não gostou da proposta que trazia uma simplicidade exótica à década mais kitsch da história da moda. Na passarela da Cour Carrée do Louvre, os modelos desfilaram descalços, com roupas de aspecto usado, meio rasgadas e envelhecidas por processos de lavagem inovadores. A parte que gostou daquilo que viu reparou que Yamamoto pincelou uma estética controversa aos ateliês acostumados ao luxo de Dior e Chanel. Alguns falaram em desconstrução do bom gosto e pontuaram que o viés contemporâneo começava ali, naquela passarela.

O processo físico fatal provocado pela hecatombe até faz sentido para o japonês, hoje com 75 anos. De- claradamente antimoda, o estilista, e não costureiro, como ele faz questão de frisar, causa mesmo um terremoto inusitado no universo fashion. Preto e branco são as suas bases preferidas. O colorido distrai, por isso não é assíduo no espectro do ateliê da marca. No mundo da física e da química – em que a alquimia é tramada –, a dobradinha P&B não precisa de complemento. As tonalidades estão ali graças à ausência de luz e à reunião de todas as cores, respectivamente. Ambas são acromáticas e capazes de estabelecer elos simbólicos com toda a história da humanidade. Se o branco está associado à pureza e ao angelical, o preto carrega a gravidade, a sobriedade, a autoridade e a tristeza – o que motivou a inspiração do estilista, cuja mãe, viúva e costureira, usava roupas pretas constantemente. Yamamoto desconstrói quase todas as ideias do circuito da moda. A primeira delas tem como centro o próprio poe a noção de que o vestuário deve se adaptar àquele que as usa e não o contrário. A sua alfaiataria de cortes assimétricos, acabamentos soltos e tamanhos aparentemente desajusta- dos traduz um desejo de ver as silhuetas libertas. “Das referências japonesas, ele traz o minimalismo que faz as suas invenções parecerem novas e velhas”, como diz Wim Wenders, diretor de Notebook on Cities and Clothes,documentário no qual explora, sobretudo, a questão da identidade presente nos modelitos transgressores de Yamamoto.

As origens nipônicas norteiam as coleções da grife, mas Yohji não gosta de ver suas crias limitadas a essa vertente. Vez ou outra ele faz questão de revelar que tem insights até mesmo nos trajes dos trabalhadores ocidentais. Sua vontade, ou pelo menos o que deu início a tudo, foi a ideia de proteger o corpo feminino dos olhares “ou do vento malicioso”. Conforto em primeiro lugar nem que seja necessário desconstruir o mundo da moda, remodelá-lo, transmutá-lo para um universo mais real, no qual as assimetrias e os desgastes são imperfeições naturais da condição humana. Um verdadeiro elixir.

Foto de Karim Sadli com styling de Simon Foxton, revista i-D, Summer 2010

Modelo Linda Evangelista, revista i-D março de 2004

Combina com o que 2

CONEXÃO COOL

O design contemporâneo atualiza as pérolas e garante boa dose de fashionismo às peças

1. Brincos de ouro amarelo, topázio branco, pérolas e diamantes, 10X R$ 846,00 ou R$ 7.614,00 à vista MANOEL BERNARDES 2. Saia
SAINT LAURENT 3. Bolsa DOLCE&GABBANA 4. Vestido BALMAIN 5. camisa CAROL BASSI 6. Óculos GUCCI 7. Sapato NICHOLAS
KIRKWOOD 8. Anel de ouro amarelo, topázio branco, pérola e diamantes 10X R$ 589,00 ou R$ 5.301,00 à vista MANOEL BERNARDES
9. Brincos de ouro amarelo, topázio branco, pérolas e diamantes 10X R$ 289,00 ou R$ 2.583,00 à vista MANOEL BERNARDES

ENREDO POÉTICO

A elegante combinação de pedras e o desenho leve rendem às joias lugar de destaque no look

1. Brincos de ouro branco, apatita, esmeralda e diamantes 10X R$ 1.013,00 ou R$ 9.117,00 à vista MANOEL BERNARDES 2. Anel de ouro
branco, apatita, esmeralda e diamantes 10X R$ 546,00 ou R$ 4.914,00 à vista MANOEL BERNARDES 3. Bolsa JW ANDERSON 4. Blusa,
CAROL BASSI 5. Anel de ouro branco, apatitas, topázio london blue, topázio branco, esmeraldas e diamantes 10X R$ 1.042,00 ou R$ 9.378,00 à
vista MANOEL BERNARDES 6. Óculos CHLOE 7. sapato JIMMY CHOO 8. calça jeans VERSACE 9. blusa TSUMORI CHISATO

INFINITO PARTICULAR

Os curingas para o dia a dia surgem com traçado despojado e pedrarias delicadas

1. Anel de ouro branco, iolita e topázio branco 10x R$ 394,00 ou R$ 3.546,00 à vista MANOEL BERNARDES
2. BLUSA GIORGIO ARMANI 3. Brincos de ouro branco, com iolita e topázio branco 10X R$ 1.089,00 ou R$ 9.801,00 à vista
MANOEL BERNARDES 4. Calça HOUSE OF HOLLAND 4. Bolsa TARA ZADEH 6. Anel de ouro branco, iolita e topázio
branco 10X R$ 228,00 ou R$ 2.052,00 à vista MANOEL BERNARDES 7. Sandália SERGIO ROSSI

SINTONIA AFINADA

As cores acertadas e os entrelaces perfeitos transformam brincos e colares em itens muito além dos modismos

1. Brincos de ouro branco, iolita, topázio swiss blue e esmeraldas 10X R$ 607,00 ou R$ 5.463,00 à vista MANOEL BERNARDES 2. Colar de ouro branco, iolita, topázio branco e esmeraldas 10X R$ 793,00 ou R$ 7.137,00 à vista MANOEL BERNARDES 3. Vestido TADASHI SHOJI 4. Anel de ouro branco, iolita, topázio branco, esmeraldas e diamantes 10X R$ 1.060,00 ou R$ 9.540,00 à vista MANOEL BERNARDES 5. Sandália SERGIO ROSSI 6. Bolsa MIU MIU 7. Brincos de ouro branco, iolita, topázio branco e esmeraldas 10X R$ 1.516,00 ou R$ 13.644,00 à vista MANOEL BERNARDES

Descosturando Fraga

A MENTE INCANSÁVEL DO ESTILISTA RONALDO FRAGA VAI MUITO ALÉM DA SEARA DA MODA – E ELE PINTA E BORDA EM TEMAS INCLUSIVOS E ATUAIS

Belo Horizonte, 27 de outubro de 1967. Sol de começo de primavera. Roney, Robson e Rosilene esperam pelo nascimento do então caçula dos Fraga – Ronaldo (que depois perdeu o posto para o irmão Rodrigo). O menino nasceu em um cenário conturbado, permeado por revoluções em prol da liberdade e dos direitos civis. Talvez seja por isso que ele tenha escolhido cultivar a paz. Rebeldia, só mesmo na sua obra.

Órfão de pai e mãe aos 11 anos, precisou de uma dose extra de amadurecimento e de muito foco para driblar o próprio destino. Apostou na educação e se inscreveu em diversos cursos de dese-nho. Fez Senac, depois ingressou na Universidade Federal de Minas Gerais e de lá carimbou o pas-saporte diretamente para a renomada Parsons School of Design, em Nova York (era o prêmio por ter conquistado o concurso promovido pela Santista, com 1.800 inscritos). A sede pelo conhecimento ainda o levou para uma temporada em Londres.

Aos 28 anos, retornou ao Brasil. Era 1995, a democracia estava restaurada e o País dava os primeiros sinais de que estava pronto para ser redescoberto. Ronaldo, literalmente, o devorou. No ano seguinte, a passarela do Phytoervas Fashion serviu como palco de estreia – e o pensamento cáustico do estilista pôde ser interpretado na coleção autobiográfica “EU AMO CORAÇÃO DE GALINHA”. “NO INTERIOR, QUANDO SE FAZ UM CÍRCULO NO CHÃO EM VOLTA DA GALINHA E ELA NÃO PULA, FICA PRESA PARA SEMPRE. É UMA METÁFORA PARA LEMBRAR QUE TEM MUITA GENTE ASSIM. NAQUELE MOMENTO, QUERIA FALAR SOBRE A IDENTIDADE DO VESTIR, A INDIVIDUALIDADE”, DIZ.

Oito desfiles depois, e ele engrossou o line-up que deu forma ao São Paulo Fashion Week. Na vida pessoal, fez par com Ivana, com quem tem Ludovico e Graciliano. Para cada nova empreitada, ele se debruça sobre histórias brasileiro – de Arthur Bispo do Rosário a Zuzu Angel, passando por Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Portinari e Athos Bulcão. Ronaldo visita o interior do País, sempre com o olhar de alguém apaixonado n’alma. Ama o vermelho-queimado do Jequitinhonha, a exuberância do rio São Francisco – cenário mítico desde a sua infância –, a delicadeza do Pará e a força do sertão. É ativista, envolvido e bem resolvido. Gosta de causas e tem os dois pés fincados no terreno da transgressão.

Enquanto a maioria dos fashionistas cultua a magreza e a beleza pueril da adolescência, ele endossa os cabelos grisalhos – que também ostenta –, o rosto marcado pelo tempo e acha ótimo zanzar na contramão dos estereótipos. Inventa moda, curte as tramas genuinamente nacionais, o ponto certeiro da mulher rendeira, o couro usado pelo vaqueiro, o retalho do tecido que está pronto para ser (re)construído.

Ronaldo, com seu bigode pontiagudo, tatuagens de alvos cravados nos cotovelos e serenidade típica do mineiro, continua rabiscando os enredos que a vida lhe impõe. “Desenhar faz as pessoas mais felizes”, avisa. O seu traço, já convertido em arte, estampa o livro “Ronaldo Fraga: Cadernos de Roupas, Memórias e Croquis” (ed. Cobogó) e provoca reflexões. Mas nem sempre há unanimidade.

Em sua mais recente investida, Fraga semeou o solo de Mariana – inundado pela lama – e provou que, mesmo quando o homem é o algoz, é possível renascer. Por meio do artesanato de tradição, ele escalou uma porção de bordadeiras da cidade de Barra Longa, também no trajeto destruidor do lamaçal, para entrelaçar as peças que emocionaram quem assistiu ao último show (e a palavra é show mesmo, já que se trata de um verdadeiro performer). “Era para ser uma consultoria rápida, mas quando cheguei ali e compreendi a história daquelas mulheres, percebi que havia a possibilidade de o ofício virar um mapa de salvação. Então passei a dar ‘lições de casa’, pedindo que elas resgatassem bordados antigos, que as avós faziam e elas já não viam mais. Depois foi a vez de recuperar os jardins que o barro soterrou, e transformar as plantas em motivo de alegria.” E é assim, com esse apreço pelas raízes, que Ronaldo descobre o Brasil.

“RONALDO VISITA O INTERIOR DO PAÍS, SEMPRE COM O OLHAR DE ALGUÉM APAIXONADO N’ALMA. AMA O VERMELHOQUEIMADO DO JEQUITINHONHA, A EXUBERÂNCIA DO RIO SÃO FRANCISCO – CENÁRIO MÍTICO DESDE A SUA INFÂNCIA –, A DELICADEZA DO PARÁ E A FORÇA DO SERTÃO”

Florescer (Wanda Barcelona)

O processo de renovação e readaptação às novas condições é fundamental para a manutenção da existência humana, e isso também se aplica ao universo da criação. Transformar elementos ordinários em objetos extraordinários e ressignificar a realidade na qual são usados é uma arte de sobrevivência e paixão. Quanto mais se busca, mais possibilidades são descobertas para novos horizontes.

ARTE COM PAPEL

O atelier Wanda Barcelona é reconhecido mundialmente por transformar papel em obras-primas que traduzem as batatais de seus clientes num mundo lúdico de puro encantamento. Inti Velez Botero é o arquiteto, responsável pela concepção dos espaços, Daniel Mancine é o designer, que os preenche com objetos únicos, e Iris Joval é a artista plástica, responsável por surpreender a todos com suas criações. Por meio de técnicas tradicionais, adaptadas com o uso de tecnologias de última geração, o papel é transformado numa matéria-prima multifacetada, capaz de ser ressignificado em diferentes formas, tamanhos e texturas.

“O PAPEL É A NOSSA TELA EM BRANCO, NOSSA TINTA E NOSSO PINCEL” Inti Velez

Foi na infância que Inti Velez Botero teve seu primeiro contato com o papel: por ser uma criança hiperativa encontrou no origami a distração e adrenalina que as crianças contemporâneas encontram nos videogames. Já Daniel Mancine, que desde a mais tenra idade já apresentava grande potencial artístico, experimentou diversos materiais para represen- tar suas ideias de maneira tridimensional, mas foi apenas na universidade, onde sua economia era restrita, que apos- tou todas as suas fichas no papel, material mais barato que conseguiu encontrar.

“O PAPEL É A NOSSA TELA EM BRANCO, NOSSA TINTA E NOSSO PIN-CEL”, AFIRMA INTI VELEZ BOTERO EM ENTREVISTA EXCLUSIVA PARA A REVISTA MANOEL BERNARDES. O ARQUITETO EXPLICA QUE TRANS-FORMAR ELEMENTOS ORDINÁRIOS EM PEÇAS EXTRAORDINÁRIAS RE- QUER MUITO TRABALHO, PAIXÃO E HORAS DE PACIÊNCIA. “QUANTO MAIS TRABALHAMOS COM ESSE MATERIAL, MAIS POSSIBILIDADES DESCOBRIMOS”, finaliza.

PROCESSO CRIATIVO

“O primeiro passo é conhecer o cliente e discutir o projeto. É muito importante en-tender o que ele quer de nós, o que ele espera, e obter toda informação necessária para tornar único esse projeto artístico. O segundo passo é transformar essa ideia em protótipos, feitos com papel, facas e tesouras. A partir do momento que as peças são aprovadas a tecnologia entra em cena para transformar o rascunho em arte final!”, explica Inti. No momento da montagem é tudo feito a mão, para um toque final mágico e personalizado, além disso o projeto só termina quando os artistas desmontam as instalações e garantem a reciclagem de todo o material utilizado, ressignificando mais uma vez os objetos.

UMA RÉPLICA DOS JARDINS MISTER DIOR COM FLORES E VEGETAÇÕES BRANCAS FOI O DESAFIO DO ATELIER PARA O MUSÉE DES ARTS DÉCORATIFS, EM 2017

“O SEGREDO É SEMPRE OLHAR, OUVIR E PROVAR. O MUNDO É UMA FONTE INTERMINÁVEL DE INSPIRAÇÃO”, ALERTA O ARQUITETO QUE ESTÁ SEMPRE LIGADO NAS TENDÊNCIAS DE MODA E MÚSICA, MAS USA SUAS VIAGENS PARA REALMENTE ENXERGAR O MUNDO AO SEU REDOR. “ACREDITAMOS QUE A CULTURA E AS DIFERENÇAS SÃO O QUE FAZEM O MUNDO UM LUGAR ÚNICO, PRECISAMOS APRENDER E INSPIRAR UNS AOS OUTROS”

Olhar transcedente

Moda, Viagens, Crianças, Retratos, Nus, Variações e Mulheres, no livro Sequências* a obra de Otto Stupakoff está perfeitamente dividida dessa maneira. Era o que ele era: um generalista objetivo, um artista fotográfico, um amante das mulheres e da beleza, mas nunca fugaz em seus cliques. Dotado de um olhar sensual e nada marcado pela mesmice das caras e bocas, foi pioneiro da fotografia de moda no Brasil e até hoje é retratado como um dos fotógrafos brasileiros de maior projeção internacional.

Nascido em São Paulo em 28 de junho de 1935, Otto Stupakoff iniciou seus estudos em fotografia ainda menino e aos sete anos já clicava. Prodigioso, aos 17 anos foi para Los Angeles estudar fotografia no hoje conhecido Art Center College do Design. Ele ficou lá até 1955 e nesse período foi correspondente da Revista Manchete, galgando um início de carreira invejável para os anos 50.

Ao voltar para o Brasil, Otto, já dono de estúdio e com uma carreira consolidada em fotojornalismo, tem um insight e resolve clicar a namorada Duda Cavalcanti com roupas do estilista Dener Pamplona. Estava criVada então a primeira foto de moda no Brasil, sendo que Duda passou a ser considerada a primeira garota de Ipanema, chavão até hoje conhecido.

O OLHAR DO ARTISTA TRANSCENDE E OS RETRATOS DE OTTO SE TRANSFORMAM EM VERDADEIRAS OBRAS DE ARTE

Ali, tudo era começo, mas Otto, já dotado de um olhar único, voltaria aos Estados Unidos e começaria a trabalhar para revistas como Harper’s Bazaar, Life, Vogue e Esquire trazendo vida para editoriais de moda que o consagraram. “Sempre tratei o retrato de moda como uma foto familiar. Sou fotógrafo de moda que tem ojeriza a fotos posadas. Sempre tentei que as modelos fossem o mais descontraídas possível, que fossem atrizes, que pudessem viver a situação com a qual elas se deparariam na locação”, contou em entrevista ao site UOL durante a mostra Moda sem Fronteiras, organizada em sua homenagem no São Paulo Fashion Week, em 2005.

Foi nessa mesma época que passou a ser chamado para fotografar celebridades. São seus alguns dos cliques mais incríveis de personalidades como Truman Capote (fotografado no mesmo dia em que se separou do marido), do ex-presidente Richard Nixon, do mal humorado Jack Nicholson, da modelo Sharon Tate – vestida de noviça na praia -, de Jorge Amado, Tom Jobim, Pelé, Sophia Loren, Grace Kelly entre muitos outros. “O máximo em fotografia de moda. Todo mundo queria um portrait feito por ele, escreveu o cronista e amigo Loyola Brandão em matéria produzida para o Estadão, logo após a morte de Stupakoff.

“SOU FOTÓGRAFO DE MODA QUE TEM OJERIZA A FOTOS POSADAS. SEMPRE TENTEI QUE AS MODELOS FOSSEM O MAIS DESCONTRAÍDAS POSSÍVEL, QUE FOSSEM ATRIZES, QUE PUDESSEM VIVER A SITUAÇÃO COM A QUAL ELAS SE DEPARARIAM NA LOCAÇÃO” OttoStupakoff

Quiçá o glamour das celebridades e das capas de revistas, Otto também fez muita foto autoral, muitas clicadas em sua casa no Rio de Janeiro, várias outras de suas esposas e filhos no interior da França e diversas imagens de fotojornalismo realizadas durante suas inúmeras viagens, sendo inclusive convidado por JK e Niemayer para documentar as obras na então nova capital brasileira, Brasília. Nessas fotos, o olhar do artista transcende mais uma vez, e os retratos de Otto se transformam em verdadeiras obras de arte. Todas essas imagens estão sob a guarda do Instituto Moreira Salles, desde 2008, compondo um gigantesco acervo de 16 mil imagens.

Símbolos ressignificados

SIMBÓLICO
Em uma atualidade em que se questiona o que se concebe como romântico e o amor sublime, bem como o que é santo e sagrado, a Moda não poderia vir em outra direção. A resposta é um novo ponto de vista, não no sentido de desrespeito ao amor e descrédito aos dogmas religiosos, mais sim uma reflexão sobre vínculos e sua efemeridade, sem contar o acolhimento de um novo credo livre e a necessidade de respeita-la em suas diferentes vertentes. O amor e a fé variaram uma tendência nos momentos de tensão atuais, mas a leitura é muito mais madura e complexa do que aquela presente nos contos de fadas.

SÍMBOLO RESSIGNIFICADOS

Símbolos poderosos são reconhecidos em conexões que não provêm da razão, mas de sentimentos e impulsos, e a moda propõe uma ressignificação desses elementos. Neste momento em que o mundo parece estar se reinventando, observam se várias rentes de questionamento sobre antigas verdades, inclusive o amor e a religião.

Quer seja pela adaptação, mudanças graduais, ou pela subversão, ações disruptivas, segundo a consultoria de estilo Rafaela Labatut Pereira a Moda como um todo está sendo ressignificado. “A expressão por meio da roupa é a grande tendência. Ainda que essa função seja intrínseca ao próprio conceito de Moda como arte e seja vista em diversos momentos ao longo da história, a verdade é que na contemporaneidade a marca que não abraças essas ideia vai acabar se perdendo no mercado”.

A Manoel Bernardes está sintonizada com este movimento e a nova coleção da marca simboliza que amor não é um todo perfeito, impecável. Ao contrário, é feito de fragmentos, de momentos de ruptura; de alegria e de dor. São cruzes e corações de design arrojado, feitos em cores incomuns, que não têm o romantismo que normalmente impregna as joias que trata do tema. “TODAS ESSAS PEÇAS TEM UM ACABAMENTO MAIS ESCURO, DARK, PARA MOSTRAR QUE NEM TUDO É TÃO COR DE ROSA COMO A GENTE QUER FAZER CRER”, revela o joalheiro Manoel Bernardes, que propõe uma nova leitura dos símbolos, desprovida de agressividade ou contestação, mas em busca de um novo ponto de vista.

“SÍMBOLOS SOCIALMENTE FORJADOS PARA O UNIVERSO FEMININO VÊM SENDO SOBREPOSTOS EM COLEÇÕES MASCULINAS E VICE-VERSA, TRAÇO ESTE QUE TENDE A SE CONSOLIDAR COMO ASSERTIVO”. Rafael Labatut Pereira, consultora de imagem.

NOVAS ROUPAGENS

A desconstrução da narrativa romântica, no melhor estilo Madame Bovary, vem presente na aposição de flores em fundos escuros, geralmente aumentadas e distantes da estamparia suave de outros tempos. Corações, rendas, babados, bolonhês, transparências, tecidos fluídos (sempre em contraponto com peças mais pesadas) além do vermelho e rosa como paleta bastante ostensiva, confirmam a nova visão.

Os símbolos, despidos de sua inocência e delicadeza, foram vistos em muitas das últimas semanas de moda, seja na contextualização caótica da Comme des Garçons ou extrema e trabalhada da Fendi. “Em contraponto, a própria ideia de gênero vem ressignificado na tendência genderless. Símbolos socialmente forjados para o universo feminino vem sendo sobrepostos em coleções masculinas e vice versa, traço este que teve a se consolidar como assertivo”, acrescenta Rafaela.

COTIDIANO: O instante, o olhar e as flores

“Os japoneses acreditam que os deuses existem na natureza e a adoram. Temos medo e respeito pelas coisas que estão ocultas, elas possuem um poder esmagador. Nesse sentido, a performance é um tipo de oração” Makoto Azuma

“Procuro novas formas de expor as espécies. Eu embalo-as a vácuo, queimo e congelo – estas ações são tentativas de fazer um recorte de sua beleza” Makoto Azuma

Indecifrável, desafiador, ousado, dono de uma visão única de mundo, Makoto Azuma é o must do momento. Queridinho dos fashionistas, esse “escultor botânico” como é conhecido, gosta de desafiar a realidade e em sua última intervenção, na semana de moda em Paris, ornamentou a passarela do estilista Dries Van Noten, com um de seus projetos mais inusitados: o Iced Flowers. Em maio o artista vem ao Brasil, para a intervenção móvel Flower Messenger, que acontece durante a inauguração da Japan House, em São Paulo. Se estamos preparados para tanta inovação, só o tempo dirá, mas com certeza essa passagem não será em branco e sim, repleta de cor e (é claro) muitas flores!

Foi quase sem querer, numa mudança de rumo na carreira, que Makoto Azuma apareceu. Desembarcando em Tokyo em 1997, ele queria mesmo tocar numa banda de rock, mas por quase uma brincadeira do destino, começou a trabalhar no Ota Market, o maior marcado de flores e plantas ornamentais no Japão. Mas o destino é sábio e ali nascia um florista inusitado, um escultor botânico, um amante da vida e da morte.

Iced_Flowers03

No Facebook Makoto diz que o seu interesse é “fazer as flores/plantas mais vivas do que elas realmente são”, mas seu trabalho não resulta apenas em expressar a beleza delas, indo muito além do superficial. O artista também não ignora a morte, ao contrário, desafia seus limites, propondo a quebra de estereótipos com ideias inimagináveis e projetos com execuções magníficas, tudo fruto de uma relação inovadora com flores e plantas, onde o instante entre o homem e a natureza é o principal motivo. O trabalho de Azuma não é sobre modificar, é sobre a permanência, sobre possibilidades, sobre o mundo, sobre nós e o meio ambiente. Ele nos oferece a reflexão e a busca pelo impossível.

Exobiotanica_Flower01

Provocador, disponibiliza no You Tube, vídeos onde retalha pedaços de carne de vaca e os ornamenta com flores, num misto grotesco e muito reflexivo sobre nossos costumes. Assim, ele transcende a figura do florista e mostra a faceta do artista performático que vai além da crítica pura e simples. “Os japoneses acreditam que os deuses existem na natureza e a adoram. Temos medo e respeito pelas coisas que estão ocultas, elas possuem um poder esmagador. Nesse sentido, a performance é um tipo de oração”, explica o escultor-botânico.

Resistência e beleza

Em 2012 Makoto foi ao extremo e lançou (literalmente) flores ao espaço – numa altitude de 30 km! Denominado Exobiotanica (exobiotanica.com), o projeto levou arranjos de flores para a estratosfera, usando para isso um balão meteorológico com uma câmera digital acoplada – que registrou imagens excepcionais desta arte no espaço. Sobre esse trabalho, Azuma afirma que a ideia foi colocar as flores num ambiente onde elas nunca poderiam existir e dessa maneira fomentar a discussão sobre o limite do possível (ou melhor, do impossível). “Para mim esse é um projeto muito importante. Pessoas que nunca se interessaram por flores, passaram a se interessar pelo assunto vendo essas as imagens”, conta em entrevista a Revista G.Q.

Desafiar a natureza daquilo que é natural, é ponto crucial no imaginário artístico desse florista espetacular. E ele mais uma vez nos deixa perplexos com a surpreendente ideia de congelar flores. Estreado na última semana de moda de Paris e produzido para decorar o desfile do estilista Dries Van Noten – parceiro de Azuma, desde 2014, em outros projetos de moda e arte -, o projeto Iced Flowers, levou as plantas ao limite da resistência, interrompendo seu fluxo natural, uma vez que foram colocadas em cubos de gelo gigantescos. O que parecia chocante acabou por ser encantador, um verdadeiro jardim de gelo repleto de cores. Um mundo surreal e incrível.

O trabalho de Azuma é inconstante e profundo e ao mesmo tempo frio e calculado milimetricamente. Opostas e diversas, suas obras vão além do entendimento comum, mas nunca perdem o sentido. É como se Azuma nos lançasse na complexidade do nada para depois enraizar nossos pés no chão. As plantas são a sua matéria-prima, ele faz com elas o que quer, porém o respeito por elas é algo muito presente no cotidiano do artista. “Procuro novas formas de expor as espécies. Eu embalo-as a vácuo, queimo e congelo – estas ações são tentativas de fazer um recorte de sua beleza”, afirma o florista. Buscando esse recorte, Azuma, cria seus projetos num estúdio no subterrâneo de Tokio, local que o artista acredita ser o melhor para as flores, já que cria uma identidade com suas raízes.

 

Back to black

Que o visual 100% black é o favorito das fashionistas e editoras de moda, todo mundo sabe. A novidade é que a tendência que já foi sucesso no inverno vem chegando com tudo no verão:
A ESTAÇÃO QUE RECEBE DE BRAÇOS ABERTOS A COR MAIS VERSÁTIL, SOFISTICADA E CASUAL DE TODOS OS TEMPOS.

Black. Black everywhere.

É verdade: a prata e o ródio negro estavam meio esquecidos nos últimos tempos. Com a volta da tendência, as joias têm aparecido cada vez mais nas ruas e passarelas.

OU SEJA: ADEUS, PRETINHO BÁSICO. A COLEÇÃO DARK DA MANOEL BERNARDES ESTREIA COM DUAS LINHAS DIFERENTES QUE TRAZEM DIFERENTES NUANCES DA TENDÊNCIA: NA PRIMEIRA, PRATA NEGRA COM TOPÁZIOS BRANCOS OU OURO ROSA COM DIAMANTES BROWN. NA SEGUNDA, UMA COMBINAÇÃO DE GEMAS CLÁSSICAS COMO A ESMERALDA E OURO BRANCO COM UM BANHO DE RÓDIO NEGRO. AFINAL, VOCÊ SABE: BLACK RULES!

ANYTHING BUT BASIC.

Elie Saab e Donna Karan comprovam: já se foi o tempo em que looks pretos são conhecidos como básicos. Para dar um up em qualquer composição, a Coleção Dark traz anéis, brincos e gargantilhas que utilizam gemas variadas, prata negra e ouro branco com banho de ródio negro.

Enquanto a linha de gemas e ouro negro aposta no uso cotidiano, com design minimalista e moderno, a linha em prata negra harmoniza o hyper com o atemporal.

“Toda coleção é composta por peças marcantes que revelam a personalidade da mulher. Sem dúvida são joias afirmativas e que demonstram um desejo de identidade e, é claro, um espírito jovem e ousado”, revela Manoel Bernardes. ESTÁ CONFIRMADO: THE ALL BLACK IS BACK.

Palais de Tokyo

A Paris Fashion Week é a semana de moda mais famosa do mundo. E não é à toa. Afinal, a cidade luz respira tendências, cultura e proporciona programas diferenciados para quem busca ir além dos roteiros tradicionais. Aproveitamos a presença da equipe do site @fashionistando por lá, para desbravar locais que merecem visita neste cenário urbano pouco falado da capital francesa.

Já conhece o Palais de Tokyo? O espaço é dedicado à arte moderna e contemporânea e abriga diversas exposições interessantes, além de um café e restaurante super charmosos. Por lá os artistas circulam livremente e se vê criatividade com naturalidade. O museu é bom para refrescar o olhar, adquirir peças de grandes designers e tirar um break com vista para a torre – caso esse seja o seu desejo.

Ah! Mas fique atento: se sua estadia em Paris coincidir com a PFW, todas as mostras do museu estarão interrompidas, porque o local sedia a semana de moda da capital francesa. Très cool!

Fusão: Manus X Machina

Vistos antigamente como verdadeiros rivais da moda, o artesanal
e o industrial finalmente se reconciliaram na nova exposição do Metropolitan Museum of Art, de New York. Com curadoria de Andrew Bolton, cerca de 120 looks estão expostos, mostrando a convergência entre o manual e o manufaturado. Impressionantes peças feitas à mão dividem espaço com tecidos tecnológicos e até looks inteiros feitos em impressoras 3D. É possível perceber claramente que na moda, assim como em outras áreas, a tecnologia está presente e em constante avanço, mas o talento, a inspiração e os sentimentos humanos são imprescindíveis para um resultado excepcional.
A incrível exposição “Manus x Machina: Fashion in an Age of Technology” ficará em cartaz até 14 de agosto e é uma parceria entre a Apple e a Condé Nast.

 

Saiba Mais

Ler: Tradição e Inovação

A busca pelo perfeito equilíbrio entre o artesanal e a tecnologia foi o que sempre pautou o trabalho de Issey Miyake. A mais completa coleção de seu trabalho ganhou edição comemorativa pela editora Taschen, um verdadeiro tributo ao designer mais criativo da era atual. O resultado de mais de 40 anos de trabalho pode ser conferido em detalhes, imagens e biografia no livro Pleats, Please, que descreve a história e o conceito da técnica das icônicas pregas do estilista.

 Guiado por uma enorme curiosidade, Miyake explorou diversas formas de confeccionar vestuários. Seu objetivo era a criação de algo que permitisse maior individualidade, comodidade e liberdade. Buscando redefinir a ligação existente entre vestuário e corpo, suas roupas foram confeccionadas a partir de técnicas tradicionais japonesas aplicadas à tecnologia da época. Suas coleções inspiram estética e sensibilidade desde o início de sua carreira.

Há mais de 40 anos mesclando poesia e praticidade, Issey Miyake fez muito mais do que uma reformulação na moda. Inspirado na liberdade, suas criações exploravam a individualidade e a comodidade, redefinindo a ligação entre corpo e vestuário. Em 1983 o designer disse em entrevista ao The New Yorker que pretendia “andar para frente para quebrar o molde”, e com a grande barreira que o desafiava, Miyake não só quebrou fronteiras como transformou as linhas de moda existentes.

Esta edição para colecionador da Taschen é um verdadeiro tributo ao designer que inspira gerações. Seu lançamento coincide com uma grande exposição no The New Yorkers, em Tóquio, oferecendo uma visão incomparável do trabalho e ousadia de Miyake. O livro é apresentado em uma sacola exclusiva desenhada pelo designer, a qual carrega a originalidade e textura de Miyake presentes desde o início de sua carreira.

 A obra trata das técnicas utilizadas e desenvolvidas pelo japonês, como o pleating, ou plissado em português. O método introduzido na década de 80 permitia flexibilidade de movimentos e facilidade na produção e manutenção das peças. Miyake desenhou os primeiros pleats para o ballet de William Forsythe.

Fruto de quase 30 anos de trabalho, surgiu o Pleats, Please, com sua primeira coleção em 1993. O trabalho representava mais uma vez o caráter inventivo do designer de moda e o livro traz em detalhes as inovações e técnicas desenvolvidas em meio a exploração da relação entre um pedaço de pano e o corpo.

Para Miyake a produção de uma roupa é como uma viagem criativa, que se inicia com os fios que se convertem em tecido, criando uma textura que acaba por assumir a forma de uma peça de roupa. Como ele mesmo diz, “o desenho nunca é algo estático e só se materializa após um intercâmbio de ideias, estética e sensibilidade”. Suas peças foram criações únicas que inspiram profissionais década após década.

Carimbada com o selo próprio de Issey Miyake a monografia também é uma mistura de tradição, futurismo e função. É possível conferir as fotografias feitas por Yuriko Takagi, que capturou as peças em sua originalidade, incluindo uma sessão de tirar o fôlego na Islândia. Num ensaio de longo alcance, o autor Kazuko Koike oferece uma cronologia completa da obra de Miyake mostrando sua ambição e inspirações que o acompanharam desde os primeiros dias de carreira.

Esta edição limitada conta com mil exemplares enumerados, cada um com o selo japonês Miyake. Aos amantes do design e costura, fica aqui o convite ao mundo de Issey Miyake e seu compromisso com a roupa e o design.

 

Crédito: Taschen Books

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