Pérola: Selvagem Notável

“Há uma concha no mar que leva o nome de concha purpúrea. Ela emerge do fundo do mar, abre sua boca e bebe o orvalho do céu e o raio do sol, da lua e das estrelas, e por intermédio dessas luzes superiores produz a pérola”. A citação do manuscrito grego Physiologus (compilação de uma série de lendas com origem nas tradições indiana, egípcia e judaica) define com delicadeza o fascínio que as pérolas exercem sobre homens e mulheres desde o início dos tempos.

METAMORFOSE POÉTICA

Gerada por um encontro de corpos estranhos, nos recônditos dos mares do sul, formada pela defesa de um organismo vivo e usada para adornar a silhueta dos privilegiados. Sua raridade a colocou num pedestal com acesso a poucos, e com isso virou símbolo da realeza. Contudo, ao passar dos anos sua mística foi modificada e o poder do homem sobre a natureza prevaleceu, transformando seu processo de metamorfose em algo delicado, mas controlável. Seu DNA seguiu presente no cotidiano feminino, na tradição dos laços familiares e no poder da mulher moderna. Hoje a pérola é mais que um objeto inanimado – é uma janela para a história da sociedade contemporânea.

Rainha das gemas, a pérola é a mais antiga pedra preciosa conhecida na história da humanidade. No advento de seu descobrimento concluiu-se que apenas uma em um milhão de ostras seria agraciada com uma pérola e dentre estas nem todas teriam a esfera perfeita ou a cor desejada. Milhares de anos se passaram até que o homem pudesse entender o processo metamórfico desse tesouro dos mares, por isso sua propriedade era considerada status de grandeza sem igual. Ao longo da história a pérola teve seu papel social. No Egito antigo Cleópatra esmagou um par de brincos e serviu no vinho de seu convidado, um general romano, para o qual queria provar seu poder inabalável. Na Idade Média leis proibiam que cidadãos comuns usassem adornos com a pedra, pois esta era privilégio da aristocracia, mas com a Revolução Francesa e a luta pela igualdade a gema se tornou símbolo de liberdade, romance, beleza e inocência.

Na cultura japonesa a pérola deu origem às mulheres do mar, mais conhecidas como “ama-san”, que mergulham nas profundezas do oceano para capturar as ostras premiadas, munidas apenas de coragem, fôlego e do sexto sentido feminino. Acredita-se que as mais belas pérolas do mundo ainda venham do Japão e foi lá que se iniciou o processo de cultivo que permitiu a democratização da pérola no mundo moderno. No século XIX cientistas conseguiram desvendar o mistério de mudança definitiva que transforma um pequeno grão de areia numa preciosidade esférica de beleza única.

Porém, foi a partir da obstinação de um japonês da região de Toba que esse processo foi reproduzido pelas mãos do homem. Com precisão cirúrgica e anos de cultivo é possível induzir a ostra a um processo de metamorfose de elementos naturais que formam a pérola. Essa descoberta cravou o espaço perene dessa gema na joalheria moderna e não abalou seu fascínio e misticismo. Essa pedra ainda é fruto de um ser vivo e traz em seu DNA a cultura feminina que invoca a geração da vida e remete à maternidade.

Para o joalheiro Manoel Bernardes, o grande desafio ao trabalhar com a pérola é reinventar sua linguagem, saindo do lugar-comum do simples colar e buscando reafirmar a identidade feminina, traduzindo na joia a mulher atual, seguindo sua evolução social. “Hoje a pérola não é um insumo extremamente caro, e acredito que seja um objeto de introdução no universo da joia, a porta de entrada para quem busca uma identidade independente, sem perder a suavidade e o romance.” A delicadeza do tato, a pureza da cor e a forma esférica, sem pontas e sem agressividade, são características simples e poderosas que criam um universo ultrafeminino. Cercada de simbologias e misticismos, como em poemas indianos, em que é considerada um presente das águas ao criador, ou como na lenda citada por Shakespeare em seu trabalho As You like it: “Doce pode ser a adversidade da vida, que, como sapo, feio e peçonhento, na cabeça traz, todavia, uma joia cingida.”

Em sua diversidade, pode ser encontrada em diferentes tipos, formatos e cores. Conhecidas como South Sea, devido à presença de Pinctada Maxima, que vive somente numa parte do oceano entre o Índico e o Pacífico, podem atingir até 20 milímetros. Já as japonesas Akoya apresentam tonalidades de branco, cinza e ouro, raras em outras gemas. A pérola negra, geralmente encontrada no Taiti, tem em sua composição um arco-íris de cores, e nas Filipinas são cultivadas as pérolas douradas, que contam com 323 passos em seu processo e mais de cinco anos para sua produção. Ainda assim a pérola branca ou levemente rosada é sua forma mais pura e valorizada com diferentes possibilidades para releitura e interpretação.