Ouro: Pedra filosofal

O ouro é eterno e imortal, assim como o espírito, imaterial por absoluto. Em sua jornada entre as trevas e a luz, o tempo de travessia é próprio e relativo. O espírito forte e livre. Enfrenta as provações do mundo real com serenidade, pois tem a certeza de que seu bem maior nunca lhe pode ser roubado. Em busca da pedra filosofal e da proximidade com o eterno o ser humano se torna alquimista da vida tentando transformar sombra em luz, ferro em ouro, finito em infinito.

Metal precioso mais antigo e valorizado pela humanidade, o ouro atravessou a história em meio a sua aura sagrada de imortalidade, poder e beleza. Seu valor nunca foi questionado e sua luz brilhava sobre reis e rainhas considerados deuses, em artefatos que celebravam o paraíso e até mesmo em rituais de vida após a morte. Seu valor espiritual é tão alto quanto seu poder monetário e até Sigmund Freud tentou explicar o fascínio de seu brilho eterno por meio da psicanálise. Mas o fato é: only God is as good as gold.

Especialistas em fósseis encontraram traços de ouro natural em cavernas espanholas usadas pelo homem paleolítico, há mais de 40 mil anos antes de Cristo

“O único transformador, o único alquimista que muda tudo em ouro é o amor. O único antídoto contra a morte, a idade, a vida vulgar, é o amor” – Anaïs Nim

Elemento químico metálico e nobre, de difícil oxidação, o Ouro (Au) é o metal mais dúctil e maleável conhecido pelo homem. Formado por óxidos não espontâneos, o tricloreto de ouro (AuCl3) e o ácido cloroáurico (HAuCl4), é atacado por uma mistura de ácidos nítrico e clorídrico. É reverenciado por sua escassez e raridade, mas está presente, em partes ínfimas, por toda a natureza. As águas do mar, por exemplo, contêm cerca de um quilograma de ouro a cada 8,3 bilhões de litros e a crosta terrestre apresenta cerca de um quilograma do metal a cada 200 mil toneladas de massa sólida (litosfera). As minas de ouro que possuem “grande” concentração do elemento têm uma proporção de um quilo de ouro para cada 334 toneladas de terra.

Sua história de amor com o homem começou há milhares de anos, mas não existem evidências exatas do primeiro a descobri-lo. No entanto, especialistas em fósseis encontraram traços de ouro natural em cavernas espanholas usadas pelo homem paleolítico, há mais de 40 mil anos antes de Cristo. A partir daí todas as grandes civilizações adoravam o metal amarelo. Seis mil anos antes de Cristo os egípcios já usavam o elemento como adorno para os faraós e foram eles que, três mil anos antes de Cristo, evidenciaram o valor desse raro material no código de Menes, que estabelecia que uma parte de ouro era equivalente a duas partes e meia de prata. O primeiro mapa do tesouro de que se tem registro é a Carte des mines d’or, feita em papiro, no ano antigo Egito, no reino de Seti I, em 1320 a.C. Fragmentos do mapa estão expostos no Museu de Turin, mas nunca foi possível encontrar os tesouros nele descritos. E foi em 700 a.C. que o ouro foi usado como dinheiro pela primeira vez, no reino de Lydia (oeste da Turquia), terra do lendário Rei Croesus, famoso por sua incessante busca pela riqueza.

Realidade X Mito

Foi a busca pelo ouro que deu origem ao mundo que conhecemos hoje. Foi atrás das riquezas prometidas em terras distantes que exploradores como James Cook, Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio, Vasco da Gama, Francisco Pizarro e tantos outros deixaram a Europa para desbravar os quatro cantos do planeta. A corrida pelo ouro gravou esses nomes na história da humanidade e lhes garantiu a imortalidade, tornando suas conquistas infinitas e suas riquezas transcendentais. Com isso o valor monetário do metal passou a se confundir com ideais espirituais, e da raridade e durabilidade suprema surgiu uma simbologia religiosa, que ligava o ouro a Deus. Passagens da Bíblia mostram o metal como uma alegoria para o caráter imutável de Cristo, e na extrema pureza do metal encontra-se também o homem temente a Deus, que ao ser “purificado pelo fogo”, em meio às provações da vida, fica mais perto do Criador. Na maleabilidade do ouro, por sua vez, encontra-se o sentido do amor, que requer trabalho e flexibilidade para ser eterno. Como disse Anaïs Nim: “o único transformador, o único alquimista que muda tudo em ouro é o amor. O único antídoto contra a morte, a idade, a vida vulgar, é o amor”.

Suor do sol

 Os Incas acreditavam que o Sol, deus Inti ou “Servo de Viracocha” era o mais importante dos deuses, e o imperador ou “Filho de Inti” era seu representante na Terra, reinando sobre os homens. Inti era adorado em muitos santuários, recebendo oferendas de ouro e prata. Possuía um grande templo em Cusco, capital do Império Inca, cujas muralhas eram feitas de ouro, elemento que acreditavam ser o suor do Sol.