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Transcultural: Epopeia de opostos

Única cidade do mundo posicionada entre dois continentes, Istambul se configura como o portal entre o Ocidente e o Oriente. Não poderia ser diferente. A sobreposição de civilizações e o encontro de culturas ao longo dos séculos legou à metrópole, a maior da Turquia, um ar cosmopolita sui generis. Enquanto a cidade antiga reúne monumentos milenares, herança dos impérios bizantino, romano e otomano, as margens do Estreito de Bósforo sediam negócios internacionais, comércio mundial, centros de arte contemporânea, vida noturna e gastronômica vibrante. Uma convivência harmônica e, ao mesmo tempo, díspar, que revela mais matizes e colorações que o dégradé do sol poente.

As origens de Istambul se encontram com os mitos greco-romanos, antes mesmo de ela ser nomeada Constantinopla, em homenagem ao imperador Constantino I. Só no século 15 os turcos otomanos se apossaram da cidade das sete colinas, legando a ela fortalezas, palácios, mesquitas e as yalis, mansões construídas à beira-mar, com jardins exuberantes e árvores frutíferas. A Turquia viveu tempos difíceis durante a Guerra Fria, mas com o colapso da União Soviética, no fim dos anos 1980, o país voltou aos bons tempos. De separação entre fronteiras, o Bósforo se tornou uma faixa de agregação, onde a desigualdade e os opostos são tidos como valores a preservar.

Portal entre o Ocidente e o Oriente, Istambul carrega um passado milenar e o choque de diferentes culturas e civilizações

A metrópole cosmopolita exibe silhuetas de mesquitas com mais de cinco séculos, ao mesmo tempo em que divide espaço com o viço e as inovações da vida moderna

Mais que ser dividida entre a Europa e a Ásia, Istambul também se fragmenta entre o dia e a noite. A luz do Sol pede a visita à deslumbrante arquitetura das construções históricas, como a Basílica de Santa Sofia e as mesquitas Azul e de Solimão I, o Magnífico, todas elas circundadas por elegantes minaretes. Também é o momento de conhecer o palácio Topkapi, antiga residência de 25 sultões e seus respectivos haréns. O paço atualmente funciona como hotel, mas expõe aos não hóspedes o tesouro de joias – como um diamante de 86 quilates –, tapetes, cristais e uma adaga cravejada de esmeraldas.

Para ter tratamento de marajá, o destino certeiro são os famosos banhos turcos (hammams), como o Ayasofia, em funcionamento desde 1556; e Kiliç Ali Paşa, de 1580. Tradicionalíssimos e cercados de mármore e luxo, os spas centenários oferecem pacotes de massagem, esfoliação, aromaterapia, sauna e, claro, banhos.

Outro atrativo diurno é o Grande Bazar, um dos maiores mercados do mundo, com mais de 5 mil lojas e 60 ruas. Datado de 1450, o labirinto comercializa todos os signos do Oriente: tapetes persas, narguilés, tecidos, antiguidades, adornos em bronze e cobre, especiarias, óleos perfumados, lamparinas e azulejos de arabescos, além de alguns cafés e restaurantes para provar o tempero turco informalmente. Mas, lembre-se: em Istambul, nenhuma atividade se calca apenas na tradição. Prova disso são os bairros Nisantasi, onde marcas como Louis Vuitton e Alexander McQueen se exibem nas vitrines; e Galata, sede de achados e comprinhas hypadas.

Próximo ao anoitecer, as luzes que começam a se acender na longa faixa do Bósforo indicam que a Istambul moderna não dorme. Ortaköy e Bebek, ambos no lado europeu, são os bairros mais frenéticos. A noite pode começar com um drinque nos rooftops da moda das ruas Nevizade e Sofyali, com vistas panorâmicas do Bósforo. Na sequência, vale provar o cardápio de restaurantes renomados, que percorrem desde a autêntica gastronomia turca até pratos mediterrâneos e internacionais.

É o caso do Karaköy Lokantasi, com pratos como o cordeiro cozido com purê de berinjela, um clássico que remonta à época do sultanato. O tradicional Ciya é outra casa de assinatura árabe, a exemplo dos kebabs (espetinhos de cubo de carne e legumes) e da carne de ovelha cozida com suco de ameixa. Também é boa ideia atravessar para o lado asiático e experimentar o bar e restaurante Lacivert, literalmente às margens do estreito. Por lá, o acento é internacional, com carnes nobres, peixe fresco e frutos do mar, regados com ervas frescas e azeite de oliva.

Clubes calibrados com música eletrônica, jazz e rock conclamam para esticar madrugada afora, sem nada a dever para as noites badaladas de Londres, Berlim e Barcelona. A cena artística, aliás, também é revigorante. A agenda inclui desde a ancestral dança dos dervishes até a moderna casa de espetáculos Zorlu Center, que concentra performances contemporâneas. Sem falar das efervescentes galerias de arte, sempre com os artistas que acontecem nas principais cidades Europa; o Museu de Arte Moderna, com foco em artistas turcos; e o Sakip Sabanci, yali particular transformada em museu dedicado à caligrafia.

Hotspots Guide por Flávio Géo (Visa Turismo)

Istambul, o coração do império Bizantino, Constantino e Otomano. Um mix de cultura. Onde a Europa encontra a Ásia.

Comer: Pescados do mar Egeu, que costuma ser servido com ervas frescas e azeite e restaurantes como o Ulus 29 e o Sunset Grill and Bar, os dois com uma vista fantástica do bósforo. O Kiyi é superbadalado. Já o Mikla é comandado pelo chef Mehmet Gurs. Por fim o Zuma, representante da culinária japonesa.

Visitar: Museu Sabanci, uma mansão particular convertida em espaço museológico. No acervo, alguns dos mais elaborados exemplos de caligrafia do mundo. O restaurante Muzedechanga é ideal para almoço ao ar livre. O bairro europeu de Pera (rua Istiklal), com vários portões de ferro batido, em estilo Art Nouveau, entre a praça Taskim e a torre Gálata. A Cisterna da Basílica fica em frente à Hagia Sophia. São centenas de colunas coríntias e dóricas, uma delas sustentada pela famosa cabeça de Medusa. Já a Praça Sultanahmet foi o coração do império bizantino, constantino e otomano. Esse mix de culturas inclui a Mesquita Azul, o palácio Topkapi (destaque para a coleção de joias), o museu de Arqueologia e a Hagia Sophia (antiga basílica transformada em museu).

Comprar: Grand Bazar e Mercado de especiarias, ótimos para tapetes, prata, bijuterias, joias e cerâmicas tradicionais.

Hospedar: Ciragan KempiskiShangri-la e Four Seasons