Publicado em

Botânica: Verde Urbano

Natural

shutterstock_383290129

“Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz”.

António Ramos Rosa – O Jardim

Verde Urbano

“A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma” – Auguste Rodin

Sua exuberante vegetação e gramados expansivos oferecem uma variedade de artes, patrimônio e experiências de natureza iniqualaveis ao homem contemporâneo.

Na trilha Spice Garden, primeiro jardim botânico experimental de Singapura, fundado pelo naturalista Sir Stanford Raffles, em1822, foram introduzidas diversas árvores de noz-moscada e outras centenas de cravos, hoje essas árvores fazem parte de toda a paisagem da ilha.

A beleza da vida que emerge e pulsa em meio ao caos urbano. É a natureza integrada à urbe num mundo em constante evolução tecnológica. Onde as metrópoles ocupam cada vez mais espaço, a valorização do natural, do orgânico e a intensidade da beleza e da força da natureza são o motor para a diversidade, proporcionando um respiro verde aos corações de pedra e transformando o homem urbano, num ser natural, dotado de instinto e sabedoria. É no ambiente verde que o homem existe, numa eterna balança entre a rotina e a vida.

shutterstock_498620887

O dia amanhece mais uma vez na capital do samba. É o Rio de Janeiro que brota aos olhos. Maravilha brasileira, a urbe carioca nos provoca os olhos e, em meio ao caos e ao calor intenso, a paisagem é uma só. Abençoando a cidade, acima dos olhares cariocas, a floresta permanece. Basta olhar para ela e os sentidos mudam, é como se fosse possível sentir o cheiro da terra e ouvir o som das saracuras e dos sabiás. É o verde que transpira e revitaliza todos os dias a capital fluminense.

shutterstock_419411338

A Floresta da Tijuca faz parte do Parque Nacional da Tijuca, monumento paisagístico com 3972 hactares e quarta maior área verde urbana do Brasil. A sua história é peculiar, pois se trata de uma obra de reflorestamento promovido a partir de 1862,  quando, Dom Pedro II, preocupado com a falta de água promovida pelo desmatamento das fazendas de café, ordenou o plantio de dezenas de espécimes de plantas da mata atlântica, muitas não nativas, o que derivou na vegetação secundária encontrada nos dias de hoje. A segunda revitalização aconteceu no século seguinte, em 1943, quando o mecenas Raymundo Ottoni de Castro Maya liderou um movimento intenso de recuperação da Floresta da Tijuca onde remodelou grutas, pontes e represas, fez a pista de obstáculos no Alto do Mesquita, construiu o portão da cascatinha e a casa do guarda, reformou todas as estradas, além de abrir novos caminhos e executar várias outras melhorias num grande trabalho paisagístico que transformou a Floresta num bem público a ser usufruído em toda a sua totalidade.  O feito perpetua e hoje a Floresta da Tijuca é a área de conservação federal mais visitada do Brasil, recebendo uma média de dois milhões de visitantes ao ano.

Majestosa em tamanho e em abundância, a Floresta abriga mais de 100 mil espécies e é considerada Patrimônio Histórico Paisagístico, tombado desde 1973, com mais seis outros monumentos paisagísticos históricos do Rio de Janeiro – Morro do Pão de Açúcar, Cara de Cão, Babilônia, Urca, Dois Irmãos e Pedra da Gávea. A proteção ambiental de paisagens orgânicas tomou corpo no Brasil a partir de 1970, por incentivo do IPHAN e para barrar a especulação imobiliária de áreas verdes das cidades. Esse incentivo abriu espaço para além da valorização do patrimônio natural das cidades, criando um “senso de estética do verde” na população e valorizando a cultura histórico-ambiental da cidade. Hoje a Floresta da Tijuca é um monumento vivo, um verdadeiro jardim histórico que pulsa no meio do Rio de Janeiro.

Segundo o arquiteto Sylvio Podestá, a proximidade do homem com a natureza e a integração desta com a arquitetura das cidades, proporciona, por si só, um ambiente mais amigável, com troca de olhares gentis. Podestá faz essa comparação, quando discute pequenas ações como a de um edifício que passa a valorizar a sua calçada com o plantio de flores ou simplesmente grama, criando ali um ambiente de gentilezas, uma vez que o homem, vendo-se rodeado pelo verde, passa, naturalmente, a ter mais cuidado com o seu entorno e com o seu semelhante. Não há como negar a teoria de Podestá, o verde seduz e revitaliza. É o encontro de instintos, pois frente à magnitude da natureza o ser humano é igual; apenas mais um animal; é natural.

Green Downton

shutterstock_110324678

“A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma”. Auguste Rodin em toda a sua sabedoria, traz a natureza em forma de alma quando contemplada com atenção. No outro canto da América, num mundo em constante evolução tecnológica, a Big Apple também pulsa um coração verde. Aqui o assimétrico fica evidente quando por cima das árvores do gramado Sheep Meadow, no Central Park, os nova-iorquinos comtemplam não somente a natureza, como também os arranha-céus. São percepções orgânicas e intensas, numa perfeita união entre a força da natureza e o concreto da cidade, entre a mulher cosmopolita e urbana, e a mulher que se deleita de biquíni no gramado verde da capital do mundo, Nova York.

As nomenclaturas se invertem e o Central Park é um oásis dentro da selva de pedra. Um oásis com 315 hactares, que divide a cidade entre quatro – da 59th Street até a 110th Street, e da Fifth Avenue até a 8th Avenue. Nele os visitantes podem fazer diversas atividades integradas à natureza, ou, simplesmente, fazer nada. Embora o parque pareça natural, ele foi praticamente, inteiramente construído pelo homem. Seu ajardinado contém lagos artificiais, trilhas para caminhadas, duas pistas para patinação no gelo, um santuário vivo e campos diversos, tudo projetado para dar ao ser humano um clima aconchegante e um retiro horizontal à tão vertical Manhattan.

shutterstock_559395553

A vegetação presente é diversa, são mais de 200 mil árvores – muitas conservadas e intactas desde o início do parque, como magnólias, olmos americanos, cerejeiras-negras, entre outras. São verdadeiros monumentos que variam conforme as estações do ano, compondo paisagens surpreendentes e cores singulares. O parque também esconde segredos e muitos visitantes passam por ele sem saber que em locais estratégicos, existem quedas d’águas artificiais que irrigam o parque com litros diários de água potável. E entre as árvores outro tesouro: mais 200 tipos de aves migratórias como o Red-winged Blackbirds, o Common Grackles, a Blue Jay, o imponente Red-tailed Hawk e o doce Red-bellied Woodpecker, que entre outros pássaros, e junto a pequenos animais como esquilos e gambás, compõe a fauna do Central Park, oferecendo ao homem uma amostra da natureza nativa da América do Norte em toda a sua beleza e potencialidade.

História e natureza

Diferente do Central Park, o Parque Fort Canning, em Singapura é um local onde história e meio ambiente se misturam num casamento silencioso. Aqui a natureza brota do tempo e irrompe o concreto, provando que nada permanecerá intacto. O toque verde é predominante e seus artefatos antigos são um must-see para os aficionados pela história. Sua exuberante vegetação e gramados expansivos oferecem uma variedade de artes, patrimônio e experiências de natureza inigualáveis ao homem contemporâneo.

Localizado no centro de Singapura, na encosta de colina Fort Canning, o local foi marco de diversas batalhas, sendo a principal a libertação do colonialismo britânico. São 18 hectares de área verde que têm com pano de fundo um magestoso patrimônio de árvores nativas, entre as quais nove espécies destacadas como patrimônio natural da humanidade. Pela trila Trees Of The Fort é possível vislumbrar algumas delas como: a Kapok, de tamanho puro e casca espinhosa, o Banyan Malaio, cujas raízes são aéreas e a Madras Thorns, famosas por alimentar diversos animais com suas flores em forma de vagem. Na trilha Spice Garden, primeiro jardim botânico experimental de Singapura, fundado pelo naturalista Sir Stamford Raffles, em1822, foram introduzidas diversas árvores de noz-moscada e outras centenas de cravos, hoje essas árvores fazem parte de toda a paisagem da ilha.

shutterstock_572815216

O Parque Fort Canning é um monumento dentro de um país que valoriza muito o meio ambiente em todas as suas dimensões. Singapura é um exemplo cada vez mais vivo e verde da relação homem x tecnologia x meio ambiente, pois desde a sua independência, em meados dos anos 70, o país trabalha com afinco em políticas de áreas verdes e na consagração da sua imagem como “uma cidade dentro de um jardim”. Iniciativas que mostram que a consciência ambiental deve estar integrada ao cotidiano, num plano de vida com foco na ascestralidade, onde não basta apenas respirarmos o verde, precisamos “expirá-lo” ao nosso redor.