O avesso do avesso

MARY ARANTES INVERTE A LÓGICA E COMPROVA QUE A SIMPLICIDADE É O JEITO MAIS CHIQUE DE DESFRUTAR A VIDA

A pluralidade sempre fez parte da rotina de Mary Arantes. Empresária, curadora, designer e escritora, essa mineira, nascida no Vale do Jequitinhonha, adora inventar moda, embora faça questão de dizer que anda na contramão das obrigatoriedades fashion. “Não me interesso pelo que se está usando, seja a cor do momento ou outras tendências. Prefiro transitar pela ‘terceira margem do rio’. Tenho estilo próprio, que se resume a vestidos e saias amplos e chinelos. Quase nunca subo no salto”, confessa.

Sua residência segue esse quê despretensioso, com arte e artesanato por todos os lados, móveis salpicados de objetos, que revelam uma biografia rica, curiosa e intensa. “A casa é o espelho de quem vive nela. Aqui é colorido, verde, cheio de plantas. Sou barroca total! Adoro deixar a porta da rua aberta e sentir o vento entrando, varrendo tudo e trazendo vida para dentro dela.” Ela é uma anfitriã de hábitos simples, porém acolhedora, que curte receber amigos e compartilhar a mesa. Por sinal, a gastronomia é um caso de amor à parte. Mary fez escola de culinária com Humberto Passeado durante 14 anos. “Sinto dificuldade em comer sozinha, sempre imagino que o que estou comendo, mesmo que seja uma carne moída com abóbora – um dos meus pratos preferidos –, poderia ser dividido com algum amigo. As panelas são imensas, quem chegar sem avisar, já pode ficar para almoçar. Bolo tem que ter sempre, as visitas já sabem, entram e já vão direto pegar uma fatia; fica ao lado do café.”

A sala é hiperdinâmica, longe do branco imaculado, com cara hospitalar que a faz torcer o nariz. Tudo ali tem função. “Os meus filhos sempre tiveram licença poética para transformar os principais ambientes em uma lan house, quando elas ainda eram raras na cidade, com uma porção de gente se revezando por aqui.”

No outro extremo do layout, o quintal desponta como refúgio – e é o seu lugar perfeito para recuperar as energias. “Preciso me sujar de terra, molhar os pés com a mangueira e presenciar a vida que existe num jardim. Plantas que nascem sem terem sido plantadas, como um pé de tomate que brotou recentemente ou dos pés de framboesa que crescem espalhados pelo quintal. A sabedoria da natureza me comove. Tocar o alecrim, manusear o manjericão e sair deles perfumada vale muito mais que as cinco gotas de qualquer perfume famoso.”

Quando está zanzando por Belo Horizonte, ela dá um jeito de parar em alguma livraria. A leitura é o seu hobby favorito. “Livro de duzentas, trezentas páginas, traço em poucas horas. Sou uma engolidora de livros! É como dizia Jorge Luis Borges: ‘Imagino o paraíso como um tipo de biblioteca’.” E com tanta disponibilidade em aprender coisas novas e aprimorar hábitos antigos, Mary conta que o seu processo criativo é intuitivo, divertido, leve e fácil. “É quase como uma brincadeira. Mas se ele não flui por alguma razão, preciso tocar, sentir, olhar os objetos, escutar o que querem ser. Ou como diz uma querida amiga: ‘É preciso ter olhos de ver’.”

“SEMPRE GOSTEI DO QUE APARENTEMENTE NÃO É BELO E ATÉ MESMO DESPREZÍVEL. O ESTRANHO ME FASCINA”

Focada em executar os seus “pequenos-grandes sonhos”, a designer está em um momento de paz. “Meditar diariamente tem sido uma conquista. Pesquisar orquídeas, num curso oferecido pela Fraternidade Olhos da Luz, em Sabará, é outra realização. Tenho feito eventos – Quermesse da Mary (que está na nona edição) –, cujo foco é a valorização do artesanato e do pequeno produtor. Passo os dias visitando ateliês, conhecendo artistas e suas criações, e o exercício de ser curadora e trabalhar a quatro mãos, abastece por completo o meu lado inventivo.” Predicado, este, que floresceu ainda na infância, quando a garota do Jequitinhonha acreditava que o sertão era o pé de umbu com seus galhos emaranhados, que na época de seca servia de esconderijo para ela e os sentimentos que fervilhavam em sua mente.

Décadas à frente, Mary interpreta o sertão com bonança e percebe que mesmo em solos estéreis, a arte é capaz de vingar. “O artesanato surge da necessidade de um povo. E ela vem do nada. De um toco de madeira faz-se a escultura mais bela, do barro da beira do rio, as cerâmicas indizíveis, da taquara da lagoa, cestarias e tramas inimagináveis. Nenhum material é comprado, tudo vem da natureza. Mas é da natureza do homem da cidade acreditar que esta arte tão nossa, tão brasileira, é apenas para a casa de campo. Na casa da cidade só é permitida a entrada de obras maiores… Mas o que são obras maiores, meu Deus?!”

Sem ter todas as respostas, ela segue na trilha do conhecimento – e entre as atividades cotidianas, tem tempo para as aulas de literatura com Reinaldo Martiniano Marques. “Quero me debruçar sobre a escrita, lançar novos livros de crônicas e uma autobiografia”, pontua. Como diria Borges, “A vida é uma conjectura” – e sempre deve ser divisível.

DEDO DE PROSA

Prato preferido? Bacalhau, qualquer receita e mexido, amooooo! Sobremesa? Torta quatro leites da amiga Mary Reis Drinque? Água tônica com gelo e limão Palavra-chave? Simplicidade Música? Prefiro o silêncio, mas amo a orquestra de pássaros no meu quintal ao amanhecer. O som do sino do vento também me embala Livro de cabeceira? Os Cinco Sentidos, de Michel Serres, e História da Alimentação, de Câmara Cascudo APP do momento? Insight Timer, de meditação. E a minha intenção em relação às mídias sociais é usar cada vez menos emojis e mais palavras. Escrever menos MSN e telefonar mais, escutar a voz O que te faz sair de casa? Encontrar as pessoas O que te faz ficar em casa? Dia de chuva, cama e livro. Sou a pessoa mais dorminhoca do planeta O que nunca falta na sua casa? Pão para dividir O que sempre falta na sua casa? Doce, como “Moreco” e eu estamos fofinhos, procuro não comprar, pois se tiver… Lugar imperdível? Nossa varanda com vista para a Serra do Curral, camarote pra assistir ao nascer da lua Com quem você adoraria ter um “dedo de prosa”? Com Jorge Luis Borges, se ele estivesse vivo