Arte que brota em solo estéril

O que o Museu da Língua Portuguesa e a Japan House, em São Paulo, e exposições de Anish Kapoor, Antony Gormley e Patricia Piccinini têm em comum? Esses espaços e mostras emblemáticos carregam consigo o mesmo DNA: a curadoria de Marcello Dantas.

Nascido no Rio de Janeiro – e legítimo cidadão do mundo –, Dantas é considerado hoje um dos principais nomes das artes plásticas no Brasil. Formado em Relações Internacionais e Diplomacia, ele cursou História da Arte em Florença, na Itália, e Filme e Televisão, na Universidade de Nova York, e ainda traz em seu currículo mais de 250 exposições no Brasil, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, além de outros países da Ásia e da América Latina.

Apaixonado por inovação, Dantas é o responsável por trazer pela primeira vez ao Brasil uma expo do artista plástico e ativista chinês Ai Weiwei. “Raízes” entra em cartaz na Oca, no Parque do Ibirapuera, no fim de ou-tubro, e apresentará, num espaço de 8 mil metros quadrados, o estilo inconfundível de Weiwei, famoso por criticar o governo da China em suas obras.

“FORMADO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS E DIPLOMACIA, MARCELLO DANTAS CURSOU HISTÓRIA DA ARTE EM FLORENÇA, NA ITÁLIA, E FILME E TELEVISÃO, NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK, E AINDA TRAZ EM SEU CURRÍCULO MAIS DE 250 EXPOSIÇÕES NO BRASIL E NO MUNDO”

Nessa entrevista exclusiva, Dantas fala sobre a nova empreitada, seu trabalho como curador e também a respeito do panorama das artes plásticas no Brasil. Confira!

Sua mais recente exposição será a do artista plástico chinês Ai Weiwei, na Oca. Como foi o processo de criação da mostra? Começou há oito anos, mas teve que ser interrompido com a prisão e o impedimento de viajar do Ai Weiwei. Eu me interessei pelo aspecto transformador que o processo de produção comunitária de suas obras tem. O impacto social era nítido antes mesmo de a obra ser concluída, e achei que de alguma forma esse modelo urgia não somente na China, mas também na América Latina. Eu o contatei e fui visitá- lo em Pequim. Assim começou o processo, depois vieram coisas que não sabíamos até então, que o pai dele havia estado no Chile e no Brasil nos anos 1950, e que ele havia passado a infância ouvindo essas histórias.

O que o público pode esperar da exposição? Será a maior exposição do Ai Weiwei em qualquer lugar do mundo. Ela contém ao mesmo tempo uma retrospectiva de suas principais obras e uma parte novíssima que são as obras que ele produziu no Brasil em quatro ateliês montados no último ano, em Trancoso, Juazeiro do Norte, São Caetano do Sul e Tremembé.

Como é para você poder montar uma mostra em espaços tão simbólicos para a cidade de São Paulo (a Oca e o Ibirapuera)? Já fiz várias mostras lá nos últimos 20 anos; e eu adoro a OCA, acho o melhor prédio do Niemeyer. Acredito que é um espaço em que qualquer exposição funciona quando dialoga com a arquitetura.

Como é o trabalho de um curador no Brasil? Que obstáculos você e os seus colegas geralmente encontram para montar uma exposição ou trazer artistas internacionais para cá? Hoje todo mundo é curador de alguma coisa. Isso é resultado da necessidade de alguém filtrar o excesso de informação que a sociedade produz. Separar o sinal do ruído é um trabalho complexo. Adoro o que faço, mas sei que não é nada fácil, as instituições são fracas e a necessidade do trabalho independente é essencial para manter a oxigenação, a criatividade e o risco. Sem risco nada vale a pena. Aí depois entra o aspecto kafkiano do Brasil, mas acho que o Brasil faz isso tudo de propósito para exigir dos profissionais a capacidade de driblar o surrealismo do País. Precisa ter um fígado forte para fazer as coisas aqui, especialmente as coisas grandes, que gosto de fazer.

Você recebe muitos convites para ser curador em mostras internacionais? Quais diferenças você vê na maneira como as artes plásticas são encaradas aqui no Brasil e em outros países? Acho que o Brasil é um país paradoxal. Trabalho no mundo todo, Ásia, Canadá, Estados Unidos, Europa, América Latina. Apesar da loucura brasileira, os projetos mais audaciosos acontecem aqui. A questão no Brasil é que o público ainda está sendo formado, são jovens que não viram muita coisa, e que estão manifestando os seus interesses, temos que abrir a cabeça dessa turma que vai melhorar esse País, espero eu. Sou otimista e creio que as artes sejam uma excelente ponte para o desenvolvimento criativo e intelectual de um povo.

O público brasileiro se interessa por artes plásticas como em outros países? Em números, definitivamente, sim. Ainda falta muita formação e informação. Mas os números do Brasil impressionam em qualquer parte do mundo. É que a escola e a universidade daqui fazem pouco para mudar esse cenário da formação. Então é um trabalho sem sistema, acontece de forma espontânea e aleatória, como tudo no Brasil.

Como você vê o atual cenário das artes plásticas no Brasil? O que ou quem vem se destacando nos últimos tempos? O surgimento de coletivos é um desafio, pois coisas muito boas saem de cabeças de grupos, o que é novo em como construir uma identidade biográfica e entender a obsessão criativa desses grupos como autores. Além de artistas excelentes que estão surgindo e já partindo para uma carreira internacional, o Brasil historicamente sempre cresce na adversidade e se empreguiça na bonança.

O que podemos aprender com a tragédia do Museu Nacional, no Rio de Janeiro? Que patrimônio, história e memória são coisas muito sérias para serem deixadas na mão de políticos e de universidades. Se a sociedade abandona um patrimônio, ela é cor- responsável pela sua deterioração. O que preserva patrimônio é vínculo afetivo, e mobilização da sociedade em protegê-lo. Precisa- mos, como sociedade civil, assu- mirmos mais responsabilidades pelos pilares que nos fundaram. O Museu Nacional era um desses pilares. Não acho que ele poderia ter sido deixado somente no campo perigoso da gestão pública de políticos.

Qual mostra sempre está em seus planos mas que você ainda não teve a oportunidade de montá-la? Uma exposição sobre Língua Geral, o idioma falado no Brasil por 300 anos e que poucas pessoas sabem que existiu. Uma sabedoria impressionante que re- vela um jeito de pensar e como convergir dentro da diversidade.