O presente morre constantemente. Como já havia dito Heráclito, um dos meus filósofos favoritos, nascido em 535 a.C., e que defendia, antes mesmo de Sócrates, a ideia de que na vida tudo flui e nada permanece, “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Pois estando o rio em constante movimento, as águas nunca serão as mesmas… Nem você.

Em tempos de selfies com frases motivadoras que pregam o “todos tudo podem, basta acreditar” (já tão naturalizadas quanto as próprias autofotografias); coaches especializados em lotar plateias com fórmulas-atalho para o sucesso – a maioria sem qualquer relevância acadêmica ou mesmo experiência corporativa de destaque –, e médicos e marcas de beleza vendendo pílulas, injeções, cremes e procedimentos que paralisam o envelhecimento e fabricam músculos e narizes e curvas de forma mágica, deixamos de ser os frágeis humanos que somos para nos tornarmos consumidores empoderados com direito divino a uma vida com satisfação 100% garantida. E Cronos tem um papel fundamental nesse enredo: é exatamente sobre acreditar no Deus Tempo, o ganhar tempo e o apagar os efeitos do tempo — e da própria vida, que falamos aqui.

Mas se já é praticamente impossível o entendimento dessa grandeza física complexa que, em seu sentido científico, está intimamente associada à própria matéria, à energia e ao espaço, o controle do tempo está completamente fora do alcance humano, bastando alguns segundos de uma reflexão não muito aprofundada para vir à tona a consciência da nossa insignificância, sensação oposta ao todo-poder-sobre-o-destino que a publicidade e as pregações dos interlocutores do parágrafo anterior pretendem nos fazer acreditar.

Um beijo apaixonado tem o poder de parar o tempo, a leitura, o de nos fazer viajar por ele. Mas o tempo, científico ou sentido, tem as suas próprias dimensões, ciclos e ritmos. Tudo aquilo que está no porvir, incluindo sonhos e projetos, depende de tantos fatores além-de-nós-mesmos, que todo dia quando consigo cumprir a agenda, saio de uma reunião com a resposta esperada ou ainda uma viagem termina sem qualquer incidente, paro, agradeço e penso: “Foi pura sorte”. E não é fascinante pensar que é impossível ter a mínima ideia do que nos pode acontecer daqui a uma hora?

E não há volta para o tempo. Cada segundo passado está eternamente no passado, assim como cada cena testemunhada, cada palavra proferida, cada risada ou lágrima ou o tédio vivido. Tecnicamente, nada existe mais. E dependendo das memórias que ficam, nos resta apenas perdoar a vida — e a nós mesmos – todos os tempos que, por culpa da vida ou nossa própria, gostaríamos de esquecer.

Na cantata Il Trionfo del Tempo e del Disiganno de Händel (um compositor alemão-devenu-britânico do século 18), com apenas quatro personagens, a Beleza faz um acordo com o Prazer para que ela tenha seu principal atributo intacto pela eternidade. Mas o Tempo e a Desilusão chegam para mostrar que são infalíveis. Ela abdica seu acordo com o Prazer, aceita o triunfo do Tempo e da Desilusão, e se eterniza na história.

Assim, respeitemos a natureza do tempo. Porque ela é o nosso elixir – não da vida eterna, mas da vida intensa.