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Origem: Sob a luz da Serra

Domingos Tótora é um artista a frente do seu tempo. Dos seus 56 anos, cerca de 40 deles foram dedicados à arte, pura e original. Sua simplicidade contradiz sua capacidade criativa. Autodidata, desenvolveu suas habilidades com a observação e a experimentação. Tudo ao seu redor serve de inspiração e o faz criar peças tão incríveis quanto sua capacidade de olhar para o próximo. Sim, seu trabalho não é apenas autoral, mas humano e sustentável do começo ao fim. Admirável do começo ao fim.

“As peças de Domingos Tótora apresentam-se como um convite a experimentação tátil; são feitas para tocar e atraem não somente as mãos, mas o olhar e o atiçamento do prazer” trecho do livro Domingos Tótora

A singularidade de sua obra está justamente em transformar matérias tão simples em esculturas icônicas, com aparência e design impecáveis e com muitos significados

Mineiro de alma e coração, nascido e criado na pequena cidade de Maria da Fé, em plena Serra da Mantiqueira, Domingos Tótora guarda em suas origens certa devoção pela terra onde plantou suas raízes. Ele conta que a sua ascendência paterna está ligada a Maria da Fé, mulher que viveu naquelas terras, ainda no século 18. “A minha história aqui na região é bem antiga e eu gosto dessa ideia de não sair daqui”, defende o artista.

De lá, saiu poucas vezes, ora para pesquisar novos materiais e técnicas, ora para apresentar seu talento, que, aliás, é um dom que sempre o acompanhou. “Trabalho com arte a vida toda, nunca fiz outra coisa. Eu pensava muito fora de Maria da Fé, em galerias foras da cidade, mas foi ao mudar meu foco de visão, que percebi além… Estava tudo no meu quintal, eu não precisava sair da minha cidade”, relembra.

De sua mãe herdou o sobrenome italiano e o jeito acolhedor. A parte materna de sua família chegou a esse pequeno recanto da serra atraída pelo clima, muito parecido com a região da Itália de onde migraram. Hoje, muitos outros estrangeiros também vão a Maria da Fé, mas agora para aplaudir seu trabalho. Orgulha-se ao receber turistas do mundo todo e de várias partes do Brasil.

De suas peças, há pouco a se falar e muito a se admirar. Sua matéria-prima são papelões usados que, ao serem misturados a água e cola, transformam-se em um produto tão resistente quanto a madeira. A singularidade de sua obra está justamente em transformar matérias tão simples em esculturas icônicas, com aparência e design impecáveis e com muitos significados. “Meu trabalho está no limite entre arte e design. Eu faço o casamento das duas coisas. Arte é arte e design é design, mas isso não impede que elas possam andar de mãos dadas. Um banco não é só um banco, mas tem uma história, é uma escultura para você se sentar”, explica Tótora.

E, lançado a esse conceito, ele segue criando, envolto a uma atmosfera onde tudo parece o inspirar. Suas criações rementem a diversidade estética da natureza, em suas curvas e formas orgânicas. E nesse compasso, cerca de 90 peças resultam de suas coleções, entre bancos, mesas, poltronas, centros de mesa, vasos, esculturas, discos e placas, todos com traços sinuosos elaborados por suas mãos habilidosas.

Em sua equipe, conta com nove artesões, cujos talentos ele vai um a um aprimorando, os capacitando para reproduzir suas obras, por ele prototipadas. Sua capacidade vai além da criação, mas transfere-se ao lúdico, enquanto amassa sua matéria, quase que como uma brincadeira de criança.

Suas peças podem ser vistas em galerias de cidades como Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, mas é em seu quintal, onde ele as expõe de maneira mais especial. Um galpão abriga suas criações, em um lugar onde a luz, pura, vinda do alto da serra, torna-se matéria palpável, dando ainda mais vida e cor a seus trabalhos, que mais parecem flutuar nos feixes de luz. “Eu criei um espaço bonito, contemporâneo, que poderia estar em qualquer lugar do mundo. E por que não em Maria da Fé? Fui percebendo, ao longo do tempo, que quando você faz um trabalho bacana, inédito, as pessoas vão até você”, defende o designer artesão.

Gente de fibra

Sua atuação na pequena Maria da Fé é mais que autoral, mas também reflete-se na arte de toda a comunidade. A cooperativa Gente de Fibra foi criada em 1999 por ele e vários artesãos locais. Com eles, Tótora compartilhou seu saber e suas técnicas, mas foi além, deu a eles a oportunidade de ter uma identidade, de viver de seus talentos e de ficar em “casa”, fazendo o que se ama. As peças fabricadas por esse grupo usam, além de papelão, fibra de bananeira. “O Gente de Fibra é um artesanato de Maria da Fé, com a cara da cidade. Hoje, eles já caminham com suas próprias pernas. A ideia é serem totalmente sustentáveis, não dependem de mim”, conta.

Para ler e admirar

A história do artista, assim como o processo de criação e suas obras podem ser revisitadas pelas páginas do livro Domingos Tótora, lançado em 2013. Nele, a autora Maria Sonia Madureira de Pinho descreve, de maneira minuciosa, as origens de seu trabalho autoral e sua vida simples de interior. Ao final é possível conhecer em detalhes suas peças.

 

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