Movimento: Inquietude Sinuosa

Contraditórias noções de espaço e ritmo ecoam persistentemente pelo ego psicanalítico de Deborah Colker. Desse universo de perguntas sem respostas, brotam caminhos e sentidos que se materializam em movimentos orgânicos no palco. Os corpos herdam, então, a inquietude sinuosa de sua criadora. A coreografia tangível questiona a gravidade, transgride os limites da física e, simultaneamente, apresenta uma refinada simplicidade, transformando cada elemento humano em um ressonante instrumento da linguagem sinestésica. É impossível permanecer inerte diante das possibilidades infinitas que se absorvem deste instigante processo criativo. Seu nome? Dança.

Colk0445

Deborah Colker, bailarina e coreógrafa, também se define como diretora de movimento. O termo, a princípio impreciso e reducionista, sugere a reinvenção do ofício, uma autodesconstrução ininterrupta em prol da mise en corps coletiva e plural. Sob esta definição, ela imprime seu DNA em dezenas de espetáculos, amplamente reconhecidos pela crítica nacional e estrangeira. O vocabulário próprio reivindica o trânsito entre o balé clássico e o jazz; entre a arte circense e a urbe da dança contemporânea; entre os palcos e os videoclipes. Também tem o cuidado de contar uma história, mesmo que, por vezes, abstraída pelos flanar dos bailarinos. A ação sobrepuja a técnica, essencial, porém, incompleta se desassociada da emoção e da expressividade experimental.

A dança artesanal de Deborah explodiu, literalmente, em Vulcão, espetáculo de estreia da Companhia de Dança Deborah Colker, nos idos de 1994, no Theatro Municipal do Rio. A jovem carioca, porém, já trafegava pelo universo do movimento desde 1979, como bailarina do grupo Coringa, da uruguaia Graciela Figueiroa, além de ter se dedicado ao voleibol e ao piano clássico na adolescência. Conduzida pelas mãos da atriz Dina Sfat, a criadora-criatura passou a direcionar seu talento para as artes cênicas. Assim, Deborah Colker se transformou em uma marca, estampada em espetáculos como A Serpente (Nelson Rodrigues), dirigida pelo saudoso Antônio Abujamra; Sonhos de Uma Noite de Verão (Shakespeare), com direção do alemão Werner Herzog, e Desejo (Eugene O’Neill), de Ulysses Cruz.

Foi Cruz, aliás, quem cunhou a expressão “diretora de movimento”, pensada na época para a própria Deborah e, hoje, já completamente incorporada aos jargões de classe. A homenagem não veio por acaso e ficou bem clara ao público e à crítica quando, já na direção da companhia, ela deu vida à Velox (1995), talvez o mais provocante e reconhecido espetáculo de sua carreira. Tradução para veloz, em latim, a obra se propõe um diálogo entre a dança e o atletismo. O ápice da troca se dá em ritmo em rock’n roll, tema da dança totalmente vertical ao alto de uma parede de sete metros, onde os bailarinos desafiam a mecânica gravitacional e os limites da ocupação do espaço.

Rota (1997), outro grande marco da companhia, se volta para a erudição da música de Mozart e Schubert, entremeadas às batidas pop do Chemical Brothers. O movimento das cenas também subverte a lógica do balé clássico. Inspirada por uma viagem à Disney World, Deborah coloca em cena uma estrutura semelhante a uma roda-gigante de ferro e convida os bailarinos – e ela própria – a interagirem com aquele corpo estranho por meio de acrobacias. Como se faltasse ousadia, a obra funde a estética pós-moderna à música de pano de fundo, o “Conto dos Bosques de Viena”, de Strauss. “A combinação da música clássica com movimentos fortes e dinâmicos é a maneira que encontrei para traduzir o que está acontecendo no mundo hoje. Não podemos ficar presos apenas às referências do passado. Está na hora de criar os clássicos do futuro”, afirmou a bailarina-diretora, na época, ao jornal Folha de S.Paulo.

A ligação entre passado e futuro do presente também rendeu releituras de obras literárias. Em Tatyana (2011), Deborah bebe na fonte poética do russo Alexandre Pushkin, autor do romance em versos Eugênio Oneguin e de músicas de compositores conterrâneos ao autor, como Rachmaninov, Tchaikovsky, Stravinsky e Prokofiev. Construído em dois atos, é mais uma história de duelos e opostos, repleta de narrativas simbólicas, vistas a partir do olhar da diretora. Nele, a própria Colker interpreta Púschkin, representando uma interação direta com o grupo de bailarinos e sua entrega pelo palco. Na sequência, Belle (2014) traz para o palco o romance Belle de Jour, do escritor franco-argentino Joseph Kessel e adaptado para o cinema surrealista por Luis Buñuel. Passada em um bordel, a obra pende à sensualidade, trazendo a sensação de desejo enigmática vista também nas obras Nós (2005) e Cruel (2008), ao som de Miles Davis e música eletrônica.

A evidente referência acrobata dos espetáculos também levou Deborah à tenda armada do Cirque du Soleil. Em Ovo (2009), o movimento se assume comprovadamente saltimbanco, mímico, ginasta, em um espetáculo que tem como temática o minimundo do insetos. “A dança dos insetos se traduz em emoção, reflete o meu vocabulário coreográfico, o meu amor pela música e a inspiração que tiro do esporte”, diz. Única mulher a dirigir um espetáculo da trupe canadense, Deborah levou ao mundo a linguagem corporal brasileira, em ritmo de samba e bossa, funk carioca e baião, forró e carimbo.

O furacão Colker ainda foi responsável pela abertura das Olimpíadas Rio 2016, quando mostrou versatilidade também em comandar não profissionais – no caso, os cerca de 6 mil voluntários que fizeram a festa. Novamente, atraiu as lentes do mundo todo, tendo como matéria-prima o corpo e o movimento e a história da ocupação do território brasileiro, desde seus primórdios. Simultaneamente, a companhia voltou aos palcos com a montagem de VeRo, que se pode ser definido como um pot-pourri de cenas dos espetáculos Velox e Rota, uma retomada desafiadora dos limites do homem e do espaço. Como síntese ou ápice, o trabalho torna ainda mais evidente como as ideias de Deborah, conjugadas com o vocabulário da ação, originam a imagem movimento. Que nada mais é do que uma arquitetura da arte espaço físico. Ou, como ela mesma define, apenas dança.

“Não e impossível são palavras que não têm lugar no meu dicionário” Deborah Colker

“Dançar é ocupar espaços, a arquitetura do movimento” Deborah Colker