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Movimento : Coreógrafa de emoções

Nascida na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, a bailarina e coreógrafa Pina Bausch se apoiou nas raízes do expressionismo alemão para criar espetáculos de dança revolucionários e atemporais que até hoje são encenados em diversas regiões do planeta. Prestes a completar seis anos de sua morte, especialistas reforçam o legado deixado por ela, sobretudo à frente da companhia Tanztheater Wuppertal, para o mundo contemporâneo.

De forma consciente ou inconsciente, durante os mais diversos períodos históricos, o homem já provou ser incansável na busca de mudanças por novas formas de expressar seus sentimentos e a relação que possui com o outro. No campo das artes, didaticamente segmentado em diversos “ismos”, um vasto campo ainda é explorado por ele para extravasar suas angústias, seus medos, suas dores e suas alegrias cotidianas. Deixando o foco mais ajustado na dança, um dos nomes mais citados na contemporaneidade, a bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009), certamente contribuiu ao inovar na forma de expor essas emoções. Nascida na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, a artista é apontada pelos críticos como fruto do expressionismo alemão que, na dança, marcou uma ruptura com o passado – evidenciado pelo ballet clássico. No caso da dança expressionista, um dos conceitos era retratar os estados emocionais primitivos do ser humano, tendo como inspiração o movimento expressionista presente nas artes plásticas e no cinema. Assim como outros da mesma escola como Rudolf von Laban e Mary Wigman, Pina buscou novas formas baseadas na liberdade do gesto corporal, distante das ataduras da métrica e do ritmo, sinalizando a relevância da autoexpressão corporal e reforçando a relação com o espaço.

Para alguns, reconhecer diferentes matizes das relações humanas e, a partir daí, desenvolver uma coreografia que fascina e desperta os mais diversos sentidos do corpo pode ser visto como uma das definições para sua arte, intitulada “dança-teatro”. O resultado disso no palco são bailarinos que interagem com a plateia, cantam, riem, choram e até mesmo servem café ou vinho. “Suas obras nos tocam tão profundamente, pois nos identificamos com os elementos de caráter autobiográfico trazidos pelos bailarinos. Além disso, essas experiências tão humanas encenadas estabelecem uma comunicação direta entre quem realiza a obra e quem a assiste”, analisa Sayonara Pereira, professora, doutora e pesquisadora da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP).

A explicação para esse misto de sensações pode estar numa declaração recorrente da coreógrafa: “Não me interesso em como as pessoas se movem, mas no que as move”. Nesse contexto, impossível não imaginar quais seriam os sentimentos que a fizeram se enveredar e estudar os movimentos dos corpos. Natural de Solingen (Alemanha), ela começou sua carreira na região. Seus pais tinham um restaurante, ligado a um hotel, onde, junto a seus irmãos, Philippine Bausch aprendeu a analisar o comportamento humano. Aos 14 anos iniciou na dança com orientação de Kurt Jooss, na Escola Folkwang, em Essen. Já aos 18, depois de premiada em Folkwang Leistungspreis, ganhou uma bolsa e foi estudar como “aluna especial” na Juilliard School of Music, em Nova York.

O passo mais decisivo em sua carreira foi dado em 1973, quando aceitou comandar o Ballet Wuppertal, que ela logo rebatizou de Tanztheater (“dança-teatro”) Wuppertal, na cidade em Wuppertal, onde trabalhou até morrer. Mas se engana quem pensa que seus passos transgressores no palco sempre foram aceitos com facilidade pelo público. Sua “dança-teatro”, que começou a despontar na década de 1960, já foi mal vista pela crítica e pelos espectadores. Acostumados à dança clássica, alguns saíam reclamando e batendo as portas dos teatros.

Hoje os ingressos para seus espetáculos, que ainda são encenados pela sua companhia (Tanztheater Wuppertal), esgotam-se rápido nas bilheterias. Cerca de 13 ou 14 peças diferentes, do variado repertório deixado por Pina, são encenadas anualmente. Em algumas, o espectador pode encontrar uma brasileira, Regina Advento. “Nós, bailarinos de sua companhia, tivemos o privilégio de dançar, cantar, atuar e criar nossos próprios movimentos. Tudo isso pode continuar a ser desenvolvido agora, depois de sua morte, de uma forma própria e individual. É o que eu estou buscando e experimentando nesse momento”, confessa a bailarina que deixou o país em 1990 para fazer carreira ao lado de Pina, na Europa.