Luz: A Cadência das cores

Considerado um dos mais importantes artistas cinéticos vivos da atualidade, Carlos Cruz-Diez (Venezuela, 1923) desenvolve obras capazes de desestabilizar nossas certezas visuais, dando movimento às superfícies estáticas da pintura através da cor. Com 58 anos dedicados à arte cinética, o artista, que atualmente reside em Paris, tem obras espalhadas por inúmeros países.

Podemos dizer que as pinturas de Cruz-Diez são máquinas visuais. Elas não param de produzir novas visualidades – não conseguimos olhar para elas sem que elas se transformem diante de nós como mágica ou como se funcionassem por uma maquinaria invisível. Mas não há maquinaria. Os movimentos cinéticos de sua pintura acontecem pela cadência das cores. Nas suas composições a cor deixa de ser um elemento fixo de objetos e se transforma em movimento cromático. Interessa para o artista justamente a instabilidade da superfície pictórica.

Os movimentos que decorrem de sua obra não são apenas um jogo de ilusão, mas obedecem a uma intenção muito clara e objetiva do artista: para ele, interessa que a arte, assim como a vida, seja pura transformação. Assim, suas pinturas obedecem a mesma lógica da vida: nada é permanente. Elas seguem o fluxo do tempo e produzem novas visualidades a cada movimento do olhar. Tempo e espaço reais se integram às suas obras. O artista, ao invés de oferecer uma interpretação de um acontecimento, oferece o próprio acontecimento.

Durante a década de 1950, a arte vivia profundas transformações. A experiência do pós-guerra havia sucumbido qualquer tentativa de os artistas representarem o real: a realidade da destruição era maior do que qualquer trabalho. Algo que Walter Benjamim já havia previsto: todo acontecimento de extrema violência desafia nossas capacidades de expressão. Uma descrição ou representação do assunto o diminuiria, como se ele fosse irrepresentável. Muitos artistas que estavam vinculados ainda, de alguma maneira, ao realismo social, vasto principalmente nas décadas de 1920 e 1930, irão seguir outros caminhos, como Jackson Pollock em direção ao expressionismo abstrato nos Estados Unidos e Carlos Cruz-Diez em direção à arte cinética e optical art ainda em Caracas, na Venezuela, e, depois, na década de 1960, em Paris.

Carlos Cruz-Diez integra um conjunto de artistas que não fazem da apreciação do objeto de arte um exercício de erudição. Interessa a relação direta do espectador com suas obras, uma relação que não se estabelecerá por símbolos ou códigos, mas pela vivência de algo que é tão universal ao humano quanto o som: a cor.

Ele começa seu caminho na arte produzindo pinturas voltadas às problemáticas sociais na Venezuela durante a década de 1940. Entretanto, desde 1954 seus trabalhos concentram-se na cor e nas várias maneiras como ela se comporta – é a partir desse ano que o artista passa a envolver-se, de forma cada vez mais intensa, na criação de uma arte não figurativa e possuidora de valores interativos, que fosse pública e acessível, como os Projetos para Muros Exteriores (1954) que podiam ser manipulados pelos transeuntes.

Na década de 1960 ele se muda para Paris e se encontra na Galeria Denise René com outros artistas pioneiros na arte cinética, como Josef Albers (1888-1976), Julio Le Parc (1928), Martha Boto (1925-2004), Luis Tomasello (1935), dentre outros. A galerista brasileira Raquel Arnaud, que representa Cruz-Diez no Brasil, comenta como se deu a aproximação com o artista: “Eu já admirava o trabalho de Cruz-Diez por intermédio de dois grandes contatos, a Galeria Denise René, de Paris, que para mim era um modelo de coerência visual, e de Sérgio Camargo, artista representado pela minha galeria. Encantei-me com sua obra e começamos a nos corresponder em 1980, quando nasceu nossa amizade e sua participação na minha galeria”, relembra.

As pinturas de Cruz-Diez nos fazem ver que a realidade das cores é uma realidade ilusória: as cores não pertencem aos objetos. Elas dependem de nossa capacidade de decodificação. As cores que estão ao nosso redor na verdade não existem. Sabemos disso, mas não nos importamos. Continuamos a nos referir às cores como propriedades dos objetos. A cor que vemos, no entanto, é justamente a propriedade que não há ali, são fótons de um determinado espectro que refletem aqueles que não estão sendo absorvidos. Entretanto, não precisamos saber mais do que isso para que haja “cor”, são necessários três elementos, invariavelmente: um observador, um objeto e luz.

Por mais que não pensemos nisso no dia a dia, as cores são de extrema importância para a compreensão do nosso ambiente. Elas se integram tanto ao nosso cotidiano que é difícil compreender que ela não é uma propriedade física dos objetos, mas sim uma representação singular da nossa espécie, uma interpretação que nosso cérebro realiza dos fótons de luz refletidos. A cor não é um pigmento, mas uma situação e uma presença. A cor é luz processada pelo olho humano – a natureza estável e instável da cor numa diversidade de suportes.

A cor deixa de ser um elemento fixo dos objetos e se transforma em movimento cromático, algo que se mantém em perpétuo acontecimento. Cruz-Diez chama assim para sua obra o conceito de presente perpétuo.

Em 2012 a Pinacoteca de São Paulo fez uma grande retrospectiva do artista, mostrando toda sua trajetória artística, do início de sua série Fisiocromias (1959-2015) às obras mais recentes. Havia salas com instalações para projeções de vídeos que reproduziam as vibrações de suas pinturas e banhavam os espectadores (Cromosaturação, 1965-2004, e Cromointerferência, 1964-2015). Sobre as futuras exposições do artista no Brasil, sua representante, Raquel Arnaud, afirma que ele acaba sendo sempre muito bem representado na galeria e nas feiras das quais participa.