Guimarães Rosa, o intraduzível

O VENERADO AUTOR MINEIRO QUE DEIXOU UMA OBRA PROFUNDAMENTE ARRAIGADA À LÍNGUA PORTUGUESA

“ESSA DIFICULDADE DE PENSAR ‘GRANDE SERTÃO: VEREDAS’ E TODA A SUA COMPLEXIDADE ESTÉTICA EM UM IDIOMA QUE NÃO O PORTUGUÊS NOS DÁ UMA DIMENSÃO DO TRABALHO QUE ROSA TEVE COM A LINGUAGEM E DO QUANTO O CLÁSSICO É UM DOS INEGÁVEIS MONUMENTOS DE NOSSA PRÓPRIA LITERATURA”

“Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser se viu; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, essa figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, carão de cão: determinaram era o demo. Povo prascóvio. Mataram.”

Recordo de quando, logo no início da Festa Literária Internacional de Paraty de 2017, conversei com a tradutora Alison Entrekin, australiana radicada há mais de 20 anos no Brasil. Seu currículo é pra lá de respeitado. Verteu com sucesso para o inglês livros de nossa literatura reconhecidamente difíceis de se levar para uma língua que não o português, como “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, repleto de gírias urbanas. Alison, no entanto, dizia-se preocupada e receosa com a empreitada que estava iniciando: traduzir para a sua língua-mãe “Grande Sertão: Veredas”, clássico de Guimarães Rosa. Afinal, como passar para o inglês algo como “Nonada”? Se só para essa palavra inicial a tradutora pensou em dezenas de possibilidades, imagine as variáveis que encontraria no restante do texto, que na edição publicada em 2015, pela Nova Fronteira, toma um livro de quase 500 páginas – o original é de 1956, vale lembrar.

Essa dificuldade de pensar “Grande Sertão: Veredas” e toda a sua complexidade estética em um idioma que não o português nos dá uma dimensão do trabalho que Rosa teve com a linguagem e do quanto o clássico é um dos inegáveis monumentos de nossa própria literatura. Para repassar a história do jagunço Riobaldo – que, dentre outras coisas, conta com um possível pacto com o demônio e um grande afeto pelo amigo Diadorim –, o escritor apostou em uma escrita extremamente inventiva e ousada, que reproduz muito do que se ouve nos rincões do País, especialmente de Minas Gerais, com um sotaque do sertão que não existe em nenhum outro canto do mundo.

Se é difícil pensar em “Grande Sertão: Veredas” em outra língua, lê-lo também pode ser uma tarefa complicada até mesmo para quem domina o português. Prefiro omitir o nome porque tive a conversa em um momento particular, não durante uma entrevista, mas certa vez estive com um grande bibliófilo de São Paulo que é completamente apaixonado pelo clássico de Rosa. No papo, dentre outras coisas, ele me contou que precisou de algumas tentativas até que conseguisse achar a melhor maneira de ler a obra. O jeito encontrado surpreendeu: passou a encarar as palavras não como uma mera narrativa, mas como uma música – vale tentar fazer o mesmo com o trecho acima, justamente a abertura do clássico. Sim, domar o colosso pode ser uma tarefa complicada, mas também extremamente prazerosa e recompensadora.

Não é por acaso que Antonio Candido, para muitos o maior crítico literário de nossa história, colocava “Grande Sertão: Veredas” como um dos títulos mais importantes de nossa literatura, ao lado de obras como “O Cortiço”, de Aluízio de Azevedo, e “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Para Candido, Riobaldo era um grande exemplo dos conflitos morais e existenciais do povo brasileiro. Entre o silêncio e os rumores do sertão, o duelo muitas vezes internamente sangrento entre a rusticidade e os sentimentos mais ternos e a busca pelas melhores maneiras de expressar aquilo que carrega em si, ainda que em muitas ocasiões improvise palavras ou gestos para tal, Rosa coloca seus personagens diante do leitor e faz com que este perceba a luta que existe para se constituir enquanto indivíduo. Em muitos casos, no entanto, a impressão é que há pouco a ser feito diante do mundo, diante da natureza. É uma espécie de sentimento de nonada.

“O ESCRITOR APOSTOU EM UMA ESCRITA EXTREMAMENTE INVENTIVA E OUSADA, QUE REPRODUZ MUITO DO QUE SE OUVE NOS RINCÕES DO PAÍS, ESPECIALMENTE DE MINAS GERAIS”

VAQUEIROS DE AURÉ

Piauiense e cidadão do mundo, Sergio Caddah começou a vida profissional como guia de turismo. Por conta do fascínio pelas paisagens e pelas pessoas, ele tomou gosto pela fotografia. Foi para o Rio de Janeiro e não demorou até mergulhar no mundo da moda. As imagens vibrantes e cheias de luz destacaram o seu trabalho, e Caddah – como é chamado – mudou para a capital paulista. “O poder de relatarmos histórias, criarmos realidades, ver o belo e a felicidade em lugares, coisas e momentos inexistentes, relacionar com pessoas e seus ambientes, vidas e cotidianos, enfim, termos um megafone imagético no qual podemos nos sentir capazes de sermos criadores e criaturas… A magia do ato fotográfico, do pensar e do sentir a possibilidade de construir uma boa imagem causa esse gosto e desejo de produzirmos cada vez mais”, pontua. No ensaio que ilustra essa matéria, batizado de “Vaqueiros de Auré”, vê-se o resultado da estética sertaneja que sempre o acompanhou. “Nunca cortei o cordão umbilical”, admite – e emenda: “O amor pelo próximo e, principalmente, a lembrança do meu avô materno, falecido ainda quando minha mãe tinha 14 anos, impulsionaram o meu desejo de iniciar esse projeto (ainda inédito). Aqui, busquei cenas e detalhes que certamente Auré (Aureliano Fortes Filho, meu avô) vivenciou. Essa coletânea, assim como outras em paralelo, caso de ‘Diadorim’ e ‘Sertões’, registra os diálogos entre o ser humano e o seu hábitat, costumes, vestimentas, gastronomia, cultura e outros fatores”, finaliza. www.caddah.com

Veja outros livros de e sobre Rosa

De Rosa: “Sagarana” é o primeiro grande livro do autor e traz uma coleção de contos na qual se destacam narrativas como “Conversa de Bois” e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, que já traziam elementos regionalistas, de contato com o místico e com a natureza, que tanto caracterizaram Rosa. Já “Primeiras Estórias”, outro título incontornável de sua bibliografia, apresenta histórias que retratam a dureza que marca o cotidiano daqueles que vivem no sertão.

Sobre Rosa: “Genealogia da Ferocidade”, escrito por Silviano Santiago, crítico literário e um dos grandes autores em atividade no Brasil (destacam- se na sua obra títulos como “Stella Manhattan” e “Mil Rosas Roubadas”), traz um profundo ensaio justamente sobre o clássico “Grande Sertão: Veredas”. Ótimo caminho para compreender um pouco melhor o rico universo de Rosa.