Mistério do Planeta

ACOSTUMADO DESDE MENINO A SE PERGUNTAR O QUE HAVIA ATRÁS DAS MONTANHAS, SEBASTIÃO SALGADO DESVENDOU O MUNDO QUE POUCOS OUSARAM.

Aos 70 anos, Sebastião Salgado pôde assistir no cinema o retrato mais completo de sua vida. Dirigido pelos cineastas Wim Wenders, de Paris, Texas e Buena Vista Social Club, e Juliano Ribeiro Salgado, o seu primogênito, o documentário O Sal da Terra, lançado em 2014, e indicado ao Oscar no ano seguinte, trouxe os muitos recortes dessa biografia – da saída do Brasil, passando pela decisão de trocar a carreira de economista pelos primeiros editoriais como fotógrafo freelancer, até o nascimento dos filhos, a volta ao País e a relação com o pai.

Sobretudo, o filme apresenta um apanhado dos principais projetos, cujos temas incluíram os movimentos populacionais, as grandes crises humanitárias e as transformações da natureza. Wenders conta que a primeira coisa que chamou a sua atenção para o brasileiro foi o olhar voltado para as pessoas. Entre as páginas do ensaio América Latina, por exemplo, produzido entre os anos de 1977 e 1984, o foco estava nas comunidades remotas do continente, do Chile ao Equador, passando pelo sertão brasileiro.

No chão árido do Nordeste, a travessia de Sebastião detectou um povo resistente, devoto e maltratado pela pobreza. À época, chamou-lhe a atenção que o elevado índice de mortalidade infantil, causada pela fome e pela desidratação, fez com que as famílias, já devastadas, tivessem que recorrer ainda ao aluguel de caixões para poder velar suas crianças. Como bem resumiu João Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”, “O diabo na rua, no meio do redemoinho”.

“UNS TOCAVAM JUMENTOS DE ALMOCREVE, OUTROS CARREGAVAM SUAS COISAS – SACOS DE MANTIMENTOS, TROUXAS DE ROUPA, REDE DE CAROÁ A TIRACOLO. O PADRE, COM CHAPÉU-DE-COURO PRÀ-TRASADO. SÓ ERA UMA PROCISSÃO SENSATA ENCHENDO ESTRADA, ÀS POEIRAS, COM O PLEQUÊIO DAS ALPERCATAS, AS VELHAS TIRAVAM LADAINHA, GENTE CANTÁVEL. REZAVAM, INDO DA MISÉRIA PARA A RIQUEZA.” A imagem há pouco descrita por Riobaldo, personagem de Grande Sertão, também cabe à perfeição na realidade capturada em outra das investigações do fotógrafo: Sahel – O Homem em Agonia.

De 1984 a 1985, ele percorreu essa região da África, da Etiópia ao Chade, Mali, Sudão e Eritreia, acompanhando as equipes dos Médicos Sem Fronteiras para ca- talogar os reflexos da seca no território. Forçados a sair de suas aldeias em busca de comida e afugentados pelos conflitos que se instalavam ali, milhares lotavam os campos de refugiados. Parte do material resultou na edição de dois livros e o valor arrecadado nas vendas foi destinado às sedes da MSF da França e da Espanha.

Após o encerramento da ousada expedição Trabalhadores, realizada de 1986 a 1991, que percorreu 30 países para mapear as formas ainda existentes de atividades manuais, numa espécie de arqueologia visual da industrialização, Sebastião voltou-se novamente para a África, onde contaria uma de suas histórias mais importantes. Êxodos destacou os muitos rostos contidos nas “colunas de gente” que se deslocavam aos milhões, fugindo do extermínio e da miséria, como foi o caso de Ruanda e do Congo, onde a cólera vitimou mais de 15 mil pessoas por dia.

De volta ao Brasil, o mineiro nascido em Aimorés, região do Vale do Rio Doce, precisou administrar os negócios do pai, que se afastou dos afazeres cotidianos para cuidar da saúde. Dessa forma, até que uma nova aventura ganhasse corpo para Sebastião e sua esposa, a arquiteta Lélia Wanick Salgado, parceira inseparável nas pesquisas e responsável pela organização dos livros, o casal, com o apoio dos filhos Juliano e Rodrigo, criou o Instituto Terra no ano de 1998.

A ideia de recuperar as áreas de mata atlântica da fazenda da família de Sebastião, hoje convertida em parque nacional, e de trechos do Vale do Rio Doce, soma inúmeros resultados, caso da restauração ecossistêmica de 7 mil hectares, da produção de 5 milhões de mudas nativas e de 750 iniciativas educacionais. Por fim, não causa surpresa que as narrativas mais recentes tenham, em linhas distintas, a natureza como argumento.

Se em Genesis, o plano em longo prazo, iniciado em 2004, consiste no registro de territórios intactos e em condição primitiva, na série Amazônia são os membros da etnia korubo que despontam da lente do observador. Considerado um dos fotógrafos sociais mais importantes de seu tempo, o incansável Sebastião Salgado é como aquela canção dos Novos Baianos, que deu título ao texto, “(…) PELA LEI NATURAL DOS ENCONTROS, EU DEIXO E RECEBO UM TANTO, E PASSO AOS OLHOS NUS, OU VESTIDOS DE LUNETAS, PASSADO, PRESENTE, PARTICIPO SENDO O MISTÉRIO DO PLANETA”. institutoterra.org

HUMANISMO LÍRICO

Sebastião Salgado é autor de verdadeiras obras-primas que transcendem a fotografia e revelam muito sobre o campo da antropologia. A sua estreia literária aconteceu em 1996, com o livro “Trabalhadores”. No ano seguinte ele publicou “Terra” e, em 1999, “Serra Pelada” e “Outras Américas”. “Retratos de Crianças do Êxodo” e “Êxodos” aconteceram em 2000. Na sequência, foi a vez de “O Fim da Pólio” (2003), “Um Incerto Estado de Graça” (2004), “O Berço da Desigualdade” (2005) e “África” (2007). O estrondoso sucesso de “Genesis” (2013) coroou a sua carreira e abriu caminho para o lançamento da autobiografia “Da minha Terra à Terra” (2014), de “Perfume de Sonho” (2015) e “Kuwait. A Desert of Fire” (2016). taschen.com

“O filme Sal da Terra, lançado em 2014, e indicado ao Oscar no ano seguinte, trouxe os muitos recortes da biografia de Sebastião – da saída do Brasil, passando pela decisão de trocar a carreira de economista pelos primeiros editoriais como fotógrafo freelancer”

Sebastião Salgado confere o livro Genesis, lançado pela Taschen, em 2013. Abaixo, fotos publicadas na obra África, de 2007