Déco: Anseios da Metrópole

VENTOS DA MODERNIDADE

Estilo de transição entre o ecletismo e o modernismo, o art déco se firmou na arquitetura das grandes cidades, que queriam se mostrar pujantes e em evolução. Valorizava o acesso centralizado das esquinas, o volume geométrico e simplificado e as superfícies curvas e aerodinâmicas. Foi muito aplicado nos Estados Unidos, no período da Grande Depressão, após 1929. A cidade de Nova York, por exemplo, tem como representante a cúpula do edifício Chrysler Building, enquanto a avenida Ocean Drive, em Miami Beach, tem um dos maiores agrupamentos de art déco do mundo, como o simbólico Hotel Cardozo.

ANSEIOS DA METRÓPOLE

Cosmopolita, geométrica, abstrata, funcional e futurista. Tal como um sopro de modernidade, a essência estética do estilo art déco se espalhou pela Belo Horizonte dos anos 1930 e 1940. Cidade-jardim, de traçado planejado, a nova capital de Minas se pretendeu moderna desde a fundação, em 1897. Ao longo dos anos, a escalada do urbanismo buscou captar modos e costumes do ideal parisiense e europeu, rompendo com o ethos do barroco colonial. Sob a égide do desenvolvimento, os elementos de arquitetura eclética e neoclássica passam a dividir espaço com as linhas retas, as curvas simétricas e os motivos solares do art déco. Nascem os arranha-céus, os cinemas de rua, o desenho industrial, cubista. Nasce a metrópole. É o anúncio da renovação.

Estilo opulento, porém despojado, o art déco foi nomeado a partir da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris em 1925 com o fim de reunir tudo o que havia de mais moderno. O conceito de vanguarda atingiu o mobiliário, as artes gráficas, o estilismo, o cinema e, claro, a arquitetura. Espalhado pela Europa e pelos Estados Unidos, chegou ao Brasil em fins da década de 1920, com a vinda de imigrantes em massa. Primeiro em São Paulo, depois no Rio e, por fim, em Belo Horizonte.

A transformação do déco na paisagem urbana de Belo Horizonte teve início com o recém-restaurado Cine Theatro Brasil Vallourec, na praça Sete. Idealizado pelo arquiteto mineiro Angelo Alberto Murgel, o prédio de sete andares se caracteriza pela forma em V, um escândalo para os padrões da época. “A inauguração do Cine Brasil, em 1932, representa a antítese de tudo que vinha sendo feito em termos arquitetônicos na cidade até então. Sua fachada em curva inova com vitrais geométricos, lanternas em metal, revestimento em pó de pedra e elementos decorativos simplificados, com traços inspirados no cubismo”, descreve o arquiteto Fernando Pimenta Marques, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG).

Nessa mesma época, o déco também se exibe na extinta Feira de Amostras. Idealizada pelo arquiteto Luiz Signorelli, descendente de italianos, a obra foi inaugurada em 1935, na praça Rio Branco. A área hoje pertence à rodoviária, instalada no local desde 1965.

O pioneirismo do Cine Brasil e da Feira de Amostras abriu espaço a novas construções em art déco – cinemas de rua, teatros e casas de espetáculos, inclusive. É o caso, por exemplo, dos extintos Cine México, na avenida Oiapoque; Cine São Cristóvão, na avenida Antônio Carlos; e o Cine Odeon, no bairro Floresta. “Afetivamente, para mim, o déco em Belo Horizonte representa a arquitetura do cinema, o símbolo da nova tecnologia”, expressa Marques. Um dos ícones mais expressivo do estilo na sétima arte é o antigo Cine Metrópole, inaugurado na primeira metade dos anos 1940 nas esquinas das ruas Goiás e Bahia. Lá funcionava o Teatro Municipal, em arquitetura eclética, que foi totalmente reconfigurado à vertente da moda pelo arquiteto e engenheiro italiano Raffaello Berti. Infelizmente, mesmo sob tombamento do Iepha e protesto da população, o prédio foi demolido em 1983.

A propósito, não se pode falar de art decó em Belo Horizonte sem se debruçar sob o legado de Raffaello Berti, um dos fundadores da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nascido em Pisa, ele chegou ao Brasil em 1922, estabelecendo-se em Minas em 1930, onde viveu até 1972, ano de sua morte. Deixou cerca de 500 projetos no estado. Só na capital, obras como o prédio da Prefeitura Municipal, na avenida Afonso Pena; a sede social do Minas Tênis Clube, o Museu Inimá di Paula e o colégio Izabela Hendrix, na rua da Bahia; o Palácio Cristo-Rei (Cúria Metropolitana), na praça da Liberdade; e o Hospital Odilon Behrens, no bairro Lagoinha. “Neles, uma marca comum: ao lado de soluções e estilemas modernos, a permanência do classicismo, que, mesmo nos exemplares mais arrojados, articula, como é característico do ‘estilo moderno’, um claro compromisso entre tradição e modernidade”, declara o arquiteto Leonardo Barci Castriota, da Escola de Arquitetura da UFMG.

 

Outro grande marco é o edifício Acaiaca, inaugurado em 1943, na avenida Afonso Pena. O prédio mais alto da cidade, com 120 metros de altura e 30 andares, adota conceitos étnicos também ressignificados pelo art déco, mas com o abrasileiramento que nos é peculiar. Enquanto paragens estrangeiras visitavam a estética egípcia, maia ou inca, o arranha-céu de formas pontiagudas imprime em sua fachada duas carrancas de índios marajoaras, torneadas pelo engenheiro Luiz Pinto Coelho. Multifuncional, o prédio já abrigou o Cine Acaiaca, o Teatro e a Escola de Filosofia da UFMG e a extinta TV Itacolomi.

A influência do estilo em Belo Horizonte também chegou às residências, especialmente dentro dos limites da avenida do Contorno, e aos bairros vizinhos, como Carlos Prates e Floresta. Com o tempo, muitas foram demolidas ou desfiguradas; poucas preservadas. “A história mostra que Belo Horizonte muda de paisagem urbana muito facilmente”, observa Fernando Marques. É que com os anos 1950 veio a estética modernista de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, eternizada na Pampulha. “O art déco foi decaindo após atingir o patamar da produção em massa. Passou a ser desvalorizado, visto como “enfeitado” e apresentando uma falsa imagem de luxo”, escreve o antropólogo Marcel de Almeida Freitas. Como a metrópole que desde sempre se enxergou, Belo Horizonte persegue o ideal de que não pode parar. Quer o novo, quer se transformar. Sempre.