Criatividade à Mineira

A escolha de Belo Horizonte como casa da sede de engenharia latino-americana da Google se deve, em parte, à posição estratégia de Minas para o ecossistema tecnológico. Com mais de trezentas startups, o polo mineiro tem sido chamado de San Pedro Valley, uma associação entre o Silicon Valley, nos Estados Unidos, e o bairro São Pedro, onde estão concentrados os principais empreendimentos em áreas como educação, TI, moda, biotecnologia e comunicação. Crise, nesse segmento, é palavra proibida. Pelo contrário, o momento favorece a criatividade, ou melhor, a economia criativa, as soluções de baixo custo em busca de superar a maré baixa das adversidades.

A sede em Belo Horizonte é responsável por muitas inovações da Google
A sede em Belo Horizonte é responsável por muitas inovações da Google

É nesse cenário que se insere a nova casa da Google. Um relacionamento que remonta ao já longínquo 1999, quando o engenheiro Berthier Ribeiro-Neto, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fundou a startup Akwan, especializada em mecanismos de buscas por algoritmos, esta robótica sequência de regras, dados e operações matemáticas que pressupõe uma web quase sob medida. Nos anos seguintes o sistema surpreendeu, abocanhando 25% do mercado local da Google. Moral da história: em 2015 a gigante californiana comprou a Arkwan em sua primeira aquisição fora dos Estados Unidos e, em 2006, Ribeiro-Neto se tornou o diretor de engenharia para a América Latina. Ao longo da última década o investimento da multinacional em Minas ultrapassou a cifra de 250 milhões de dólares.

O novo espaço de 4,8 mil metros quadrados coroa as bodas de aço desse casamento bem-sucedido. Divididas em quatro andares da espelhada torre comercial do Boulevard Shopping, no bairro Santa Efigênia, as modernas salas unem paisagismo tecnológico ao design, num projeto arquitetônico sustentável que por vezes remete a Matrix. Elas têm também todos os clichês que se esperam de um escritório da Google: uma cozinha por andar; mesas de sinuca, pingue-pongue e pebolim; videogames e fliperamas; café, pipoca, lanches e bebidas geladas de cortesia; jogos de tabuleiro;  sala de ioga e sala de cochilo; salão de beleza e barbearia; parede de escalada, academia e aparelhos de pilates; e até mesmo um semiestúdio musical com direito a bateria. Uma mistura entre home office e um clube de amigos, distante do estresse, pode-se dizer. Tudo ocupado e habitado em horários flexíveis por diferentes perfis de geeks – sim, alguns têm o estereótipo de cabelos  desgrenhados, óculos fundo de garrafa, camisas floridas, bermudas e chinelos –, que encontram inspiração e criatividade na informalidade do ambiente de trabalho e da convivência.

O NOVO ESPAÇO DE 4,8 MIL METROS QUADRADOS TEM AMENITIES COMO MESA DE SINUCA, ACADEMIA E ESTÚDIO MUSICAL NUM MISTO DE HOME OFFICE E CLUBE PRIVADO

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O CENTRO DE ENGENHARIA EM BELO
HORIZONTE É RESPONSÁVEL POR 1 EM CADA
10 INOVAÇÕES DA GOOGLE NO MUNDO

Mas o centro high-tech não é só diversão. Ao contrário, reúne baias com mesas de trabalho com ajuste de altura – o que permite trabalhar em pé – auditório, biblioteca e salas de reunião envidraçadas e transparentes. A amplitude ainda permitiu à Google dobrar o número de engenheiros de computação responsáveis pelo código-fonte da empresa. Atualmente são duzentas cabeças pensantes no centro de engenharia, pinçados da Universidade Federal de Minas Gerais e das melhores instituições de ensino de outros 12 estados brasileiros, além de alguns representantes estrangeiros. Todos são fluentes em linguagem de programação e em inglês, já que a maior parte dos debates internacionais acontece na sede do idioma nativo da Google.

Hoje, boa parte dos resultados de alcance global sai da intelligentsia reunida em Belo Horizonte. Em termos exatos, de cada dez inovações apresentadas pela empresa, uma nasce em Minas. Algumas delas se destacam, como o aperfeiçoamento de buscas de locais próximos, como lojas, farmácias e restaurantes, e o aperfeiçoamento do algoritmo de contexto em smartphones, como, ao digitar “Mineirão”, o sistema também indicar o nome oficial, “Estádio Governador Magalhães Pinto”. Atualmente, a plataforma atende a cerca de 20% das empresas do mundo.

Outro projeto de “responsa” é o Google Health, algoritmo de busca específico para doenças, correspondente a 5% de todos os nichos digitados. Em parceria com o hospital Albert Einstein, em São Paulo, a equipe catalogou aproximadamente quatrocentas doenças, com diferentes formas de prevenção, contágio, sintomas e tratamento, em textos escritos e revisados por médicos especialistas, descartando as fontes duvidosas. Ambos são um exemplo de como a Google se considera corresponsável na catalogação do universo virtual. Com o novo escritório, a ambição é se tornar ainda mais referencial em apresentar informação confiável aos usuários, mergulhados no universo de aproximadamente 20 bilhões de novas páginas diárias, um fluxo de quase 14 milhões por minuto. Uma tarefa necessária, obviamente, mas que em contraponto revela o quanto somos individualmente frágeis e vulneráveis diante da força do ciberespaço.