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COTIDIANO: Além do papel

Em uma época de consumo desenfreado onde o ter supera o ser, artistas quebram paradigmas e buscam uma ruptura social ao valorizarem o universo minimalista, evidenciando a simplicidade e a beleza natural do mundo e dos seres humanos. Um fósforo queimando, um aperto de mãos desconhecidas e até um simples momento de reflexão se tornam instalações artísticas propondo uma resignificação de elementos do dia a dia. Em uma outra vertente a beleza etérea das flores, se intensifica quando registrada fora de seu ambiente natural, como no espaço ou no fundo do mar.

Pioneira da arte conceitual e uma das primeiras a questionar as fronteiras tradicionais entre a obra e o público, Yoko Ono é uma das principais artistas experimentais e de vanguarda. A renomada artista traz seus questionamentos para São Paulo em 2017 com a exposição O CÉU AINDA É AZUL, VOCÊ SABE…, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake.

“O CÉU AINDA É AZUL, VOCÊ SABE… evidencia as narrativas que expressam a visão poética e crítica de Yoko Ono”– Gunnar B. Kvaran

Nessas peças a artista solicita do público as suas histórias e faz de sua obra um algoritmo que os processa, publica e armazena

Com curadoria de Gunnar B. Kvaran, crítico islandês e diretor do Astrup Fearnley Museum of Modern Art, em Oslo, a exposição O CÉU AINDA É AZUL, VOCÊ SABE… pretende revelar os elementos básicos que definem a vasta e diversa carreira artística de Yoko Ono – uma viagem pela noção da própria arte, com forte engajamento político e social. Como uma das poucas mulheres a participar do Grupo Fluxus, happenings dos anos 60, a artista continua questionando de forma decisiva o conceito de arte e do objeto de arte, derrubando esses limites. Sendo pioneira ao incluir o espectador no processo criativo, convidando-o a desempenhar um papel ativo em sua obra.

E é exatamente esse trabalho simbiótico que será apresentado na exposição brasileira, patrocinada pelo Bradesco e Instituto CCR, e concebida especialmente para o Instituto Tomie Ohtake. As 65 peças de “Instruções”, evocam justamente a participação do espectador para sua realização. São trabalhos que sublinham os princípios norteadores da produção da artista, ao questionar a ideia por trás de uma obra, destacando a sua efemeridade enquanto a dessacraliza como objeto.

O curador ressalta que O CÉU AINDA É AZUL, VOCÊ SABE… evidencia as narrativas que expressam a visão poética e crítica de Yoko Ono. São trabalhos criados a partir de 1955, quando ela compôs a sua primeira obra instrução, Lighting Piece / Peça de Acender (1955), “acenda um fósforo e assista até que se apague”. Na exposição, é possível seguir a sua criatividade e produção artística pelos anos 60, 70, 80, até o presente.

As “Instruções” de Yoko Ono, conforme o curador do Instituto Tomie Ohtake, Paulo Miyada, oscilam entre sugestões tão sucintas e abertas que se realizam tão logo são lidas, como Respire (1966), Sonhe (1964), Sinta (1963), Imagine (1962), ou em uma sequências de ações realizáveis por qualquer um que se dedique a isso, como Pintura para apertar as mãos (pintura para covardes) (1961), “fure uma tela, coloque a sua mão através do buraco , aperte as mãos e converse usando as mãos”; Peça de Toque (1963), “toquem uns aos outros”; Mapa Imagine a Paz (2003), “ peça o carimbo e cubra o mundo de paz”.

Há também as sugestões aplicáveis apenas no campo mental, poético ou imaginário, como Peça do Sol (1962), “observe o Sol até ele ficar quadrado”; Capacetes-Pedaço de Céu (2001/2008), “pegue um pedaço de céu, saiba que todos somos parte um do outro”; Peça para Limpar III (1996), “tente não dizer nada negativo sobre ninguém, por três dias, por 45 dias, por três meses”.

Já as proposições como Mamãe é linda (1997), “escreva suas memórias sobre a sua mãe”; Emergir (2013/2017), “faça um depoimento de alguma violência que tenha sentido como mulher”; e Árvore dos Pedidos para o mundo (2016), “faça um pedido e peça à arvore que envie seus pedidos a todas as árvores do mundo”, são casos, como ressalta Miyada, que ao mesmo tempo antecipam e catalisam o poder atual dos depoimentos pessoais multiplicados pelas redes. Nessas peças a artista solicita do público as suas histórias e faz de sua obra um algoritmo que os processa, publica e armazena.

Serviço

Exposição: O CÉU AINDA É AZUL, VOCÊ SABE… – YOKO ONO
Data: 01/04 à 28/05 – De terça a domingo, das 11h às 20h
Ingressos: R$12,00 e R$6,00 (meia-entrada); às terças terças-feiras, entrada gratuita (mediante retirada de senhas na bilheteria do Instituto Tomie Ohtake)
Local: Instituto Tomie Ohtake – Rua Coropé, n. 88, São Paulo – SP