Ausência de fronteiras

Apreciar uma obra de arte num ambiente confortável, funcional e moderno pode ser o ideal de muitos visitantes de museu ao redor do mundo. Ao fazer um rápido tour pelas principais cidades do globo é possível perceber que existem instituições atendendo a essa demanda e indo muito além do esperado. Em Nova York, Denver (ambas nos EUA), Doha (Qatar) e Cidade do Cabo (África do Sul) foram concebidos espaços que unem o melhor da arte e da arquitetura em projetos inovadores.

noite-no-museu

 

 

Além do conteúdo proposto por museus instalados nessas regiões, suas instalações são um atrativo extra para os apreciadores de arte. Mas nem sempre foi assim. A arquiteta mexicana Yani Herreman, em seu artigo “A New Canvas for a New Creative Talent: Contemporary Trends in Museum Architecture”, publicado na revista Museum (1989), revela que os museus como conhecemos hoje são frutos de transformações que tiveram um start na década de 1960. Entre eles está a consolidação da museologia como uma ciência, o que deixou a profissão de museólogo ainda mais completa com o reforço de outras áreas do conhecimento (comunicação, ciências da computação, sociologia etc.).

Em paralelo, as funções básicas de um museu foram ampliadas, uma vez que eles foram paulatinamente ganhando ares de centros culturais, onde atividades comerciais como lojas, cafeterias e restaurantes passaram a ser bem-vindas. Yani relata ainda a valorização crescente da arquitetura dos prédios com o aprimoramento de estilos, tendências e escolas que ainda fazem a fama de diversos profissionais da área. Com o passar dos anos, eles ficaram ainda mais especializados na missão de encantar os visitantes.

construcoes-manoel-bernardes

A prova disso está na relação a seguir, que o convida a embarcar numa viagem em direção a museus espalhados por diferentes países. Em todos eles, é praticamente inexistente a fronteira entre os ambientes internos e externos quando consideramos a localização das obras de arte. As imagens que chegam à retina do público são resultado de um elaborado processo artístico que seduz os sentidos e contribui para ampliar o repertório cultural do interessado.

Zeitz MOCAA / África do Sul

Começamos a trajetória por um projeto que desde 2014, quando foi lançado, alimenta manchetes na mídia por sua ousadia. Planejado pelo escritório londrino Heatherwick Studio, o Zeitz Museum of Contemporary Art Africa (Zeitz MOCAA), na Cidade do Cabo (África do Sul), está em construção e promete ser uma releitura do Complexo de Silos de Grãos da região. Em outras palavras, o espaço incrementará o skyline com um prédio que engloba 42 tubos de concreto (33 metros de altura e 5,5 de diâmetro cada), numa área de aproximadamente 9.500 metros quadrados.

Ao que tudo indica, as áreas de visitação e um espaço central de circulação estarão em sintonia com a estrutura de concreto celular dos silos. Ao todo estão previstos 80 galerias, 18 áreas de educação, um jardim de esculturas na cobertura e uma área para armazenamento das peças, entre outros espaços. Tudo isso será inaugurado em 2017, tendo como missão principal a promoção da arte contemporânea africana.

manoel-bernardes-mocaa

dam-hamilton-building

 

Denver Art Museum / E U A

denver-museu-manoel-bernardes

Do outro lado do mapa-múndi, mais exatamente em Denver(região central dos EUA), o Denver Art Museum é mais um ícone dessa variada lista de museus que encantam os olhos, além de ampliar o conhecimento de seus visitantes. Construída há exatos dez anos com a missão de abrigar a crescente coleção da instituição, a nova sede recebeu o nome de Hamilton Building. Assinado pelo arquiteto polaco-americano Daniel Libeskind, o espaço remete aos picos das Montanhas Rochosas norte-americanas e aos cristais geométricos encontrados nas proximidades da cidade.

“Fui inspirado pela luz e geologia das Rochosas, mas acima de tudo pelo semblante aberto do povo de Denver”, revela Libeskind em comunicado oficial do museu. Em sua área externa, o prédio de estilo arrojado é revestida por 9.000 placas de titânio que refletem a luz do sol, no Estado do Colorado. No lado de dentro estão obras de diferentes períodos históricos realizadas na Ásia, África, Europa e América do Norte. Mas são as mais de 128 exposições temporárias como “Becoming Van Gogh” e “Yves Saint Laurent: the Retrospective”, que garantem visibilidade à instituição.

 

New Museum / E U A

A cerca de 2.800 quilômetros do relevo acentuado dessa região, mais precisamente nos domínios da cidade de Nova York, americanos e turistas de diferentes nacionalidades têm à disposição outro museu que se destaca por ter um estilo arquitetônico marcante. Incrustado no Lower East Side, o novo edifício do The New Museum of Contemporary Art inaugurado em meados de 2007, assemelha-se a um empilhado de sete caixas brancas prestes a tombar no frisson de Manhattan.

“O NEW MUSEUM É UMA COMBINAÇÃO ENTRE O ELEGANTE E O URBANO. NÓS ESTÁVAMOS DETERMINADOS A FAZER UM PRÉDIO QUE REFLETISSE ISSO”
Kazuyo Sejimae Ryu e Nishizawa

Desde 1977, apesar de ter passado por diversos endereços, a instituição ainda é um dos principais endereços da arte contemporânea mundial. “O New Museum é uma combinação entre o elegante e o urbano. Nós estávamos determinados a fazer um prédio que refletisse isso”, afirmam os arquitetos japoneses Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, que assinam o prédio atual, em texto divulgado pelo museu. No total, são quase 54 metros de altura que garantem uma vista privilegiada para as ruas Bowery e Prince, num bairro marcado pela diversidade cultural.

new-museu-manoel-bernardes

National Museum / Qatar

Direcionando a rota em direção ao Oriente Médio uma nova obra da arquitetura contemporânea promete abrigar os apreciadores de arte na melhor combinação de conforto, funcionalidade e alta tecnologia. Trata-se do National Museum of Qatar em Doha, no Qatar. Em construção desde 2008 – e ainda sem data de inauguração divulgada – o edifício é inspirado na “rosa do deserto”, uma figura geométrica formada a partir da exposição de cristais de areia a condições de temperatura e pressão diversas.

national-museu-qatar

O responsável pela obra é o francês Jean Nouvel, que já assinou edifícios em cidades como Bruxelas (Gare du Midi), Paris (Institut Imagine) e São Paulo (Torre Rosewood, ainda em construção). Seu novo projeto no Qatar está sendo erguido em torno do palácio do xeique Abdullah bin Jassim Al Thani, que foi a casa de sua família e a sede de seu governo. Além de salas para exposições, nas quais o foco deverá ser a cultura local, o suntuoso espaço prevê um auditório, duas lojas, dois restaurantes, um café, um centro de pesquisa, laboratórios, um espaço para difusão da culinária do país e um parque repleto de plantas indígenas.