Atitude: Arte Habitat

Era 1994 quando Jouy-en-Josas – comuna localizada próxima a Versailles – encerrava sua década como sede de uma intensa movimentação cultural. Enquanto isso, Paris se preparava para receber mais uma joia da arquitetura e das artes, o prédio da Fondation Cartier pour l’art contemporain, desenhado por Jean Nouvel, também criador do Institut du Monde Arabe e do Musée du Quai Branly.

Por fora uma cortina de vidro corre paralela ao boulevard Raspail, passando pelos cedros-do-líbano plantados por Chateaubriand em 1823. Para adentrar ali é preciso atravessar um portal de plantas vivas, ou “plant wall”, nos termos de seu criador, Patrick Blanc, especialista em botânica tropical. Feito isto é preciso calibrar o olhar para absorver uma quantidade avassaladora de inputs. Arte contemporânea em sua melhor forma e curadoria.

Há trinta anos recém comemorados, a Cartier desenvolve um estilo bastante particular de patronage por meio de sua fundação. Mais do que promover encontros criativos entre artistas e público, o espaço se dedica a fomentar atenções para a arte contemporânea, o que exige um exercício muito maior do que apenas ceder território para exposições. Com um calendário eclético de mostras individuais e temáticas – além do Nomadic Nights, um rendezvous da arte performática – a Fundação Cartier comissiona trabalhos, realiza publicações e constituiu uma respeitada coleção. O conjunto se baseia majoritariamente em obras das principais correntes da década de 1980, com a particularidade de adquirir peças em grandes formatos. Como entidade autônoma, a fundação honra a filosofia de seu fundador, Alain Dominique Perrin, defensor de uma operação independente e desvinculada. Seu único compromisso é com a “causa” da arte. Art for art’s sake.

Focados em heterogeneidade e inovação, a fundação foi responsável por descobrir novos talentos e levá-los aos olhos do mundo. No primeiro ano de atividade, por exemplo, uma videoinstalação monumental comissionada transformou a carreira do videoartista Pierrick Sorin. O próprio jardim vertical da porta de entrada, mencionado no início, foi a alavanca para o trabalho de Patrick Blanc. Em 2002, foi palco da épica Kaikai Kiki, primeiro solo de grande escala na Europa do fenômeno neo-pop Takashi Murakami. Em 2005, introduziram ao público francês as esculturas hiper-realistas de Ron Mueck. Sucesso estrondoso.

Mais recentemente, desde outubro de 2013, as impactantes figuras humanas do australiano estiveram em turnê pela Fundación Proa de Buenos Aires, pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e pela Pinacoteca do Estado de São Paulo. O resultado de público extrapolou mais de um milhão de visitantes.

A fundação também está aberta para a arte de outras culturas. Em 2003 organizou uma importante exposição dedicada aos índios Yanomami da Amazônia. Agora se prepara para receber Beauté Congo, uma homenagem à extraordinária vitalidade cultural da República Democrática do Congo, que ficará em cartaz de 11 de julho a 15 de novembro. Sob a experiente curadoria de André Magnin – que há trinta anos encabeça pesquisas sobre arte contemporânea em culturas não ocidentais, especialmente na África Subsaariana – a mostra tem a ambiciosa proposta de cobrir quase um século de produção artística, partindo do nascimento da pintura no Congo nos anos 1920. Além das telas, serão exibidas esculturas, fotografias e músicas, numa atmosfera para vivenciar a cena artística vibrante da região. Vale ressaltar o compromisso da Fundação Cartier com a arte africana, que já promoveu outras exposições com artistas congoleses: Bodys Isek Kingelez (1999), Un Art Populaire (2001), J’aime Chéri Samba (2004), e Histoires de Voir (2012).